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Beata Maria Resoluta

Beata Maria Resoluta

A mulher que não deixou o Crucifixo ser retirado

Em 1º de maio de 1894, na pequena localidade de Husovice, então pertencente à Morávia e hoje parte da cidade de Brno, na República Tcheca, nasceu Helene Kafka. Filha de Anton Kafka e Maria Stehlik, ela veio ao mundo em uma região que, naquele período, fazia parte do Império Austro-Húngaro. Dois anos depois, sua família deixou a Morávia e mudou-se para Viena, levando consigo a menina que, décadas mais tarde, haveria de oferecer a própria vida como testemunho de sua fé.

Viena tornou-se o cenário de sua infância e juventude. Ali, Helene conheceu as dificuldades e responsabilidades da vida cotidiana e, pouco a pouco, amadureceu nela o desejo de consagrar-se a Deus. Seus pais, porém, inicialmente não acolheram essa decisão. A jovem precisou esperar e, respeitando a vontade da família, continuou seu caminho até que pudesse seguir sua vocação com o consentimento dos seus.

Ainda jovem, Helene aproximou-se do serviço aos doentes. Trabalhou na área da enfermagem e descobriu naquele cuidado uma forma concreta de servir ao próximo. Em 1914, ingressou entre as Franciscanas da Caridade Cristã, conhecidas também como Irmãs de Hartmann, recebendo o nome religioso de Maria Restituta. Algumas fontes registram sua entrada como noviça em 1915, refletindo diferenças na forma de datar as etapas de sua entrada na congregação.

O nome Restituta passou a acompanhar uma mulher cuja personalidade não demorou a ser percebida por todos. No ambiente hospitalar, sua competência profissional caminhava ao lado de uma maneira direta, cordial e determinada de tratar as pessoas. Por isso, surgiu espontaneamente o apelido de “irmã Resoluta”, expressão que fazia referência tanto à sua firmeza quanto à segurança com que desempenhava seu trabalho. O próprio Papa João Paulo II, ao beatificá-la, recordou que sua competência, determinação e cordialidade fizeram com que muitos a chamassem de “irmã Resoluta”, em vez de Restituta.

Depois da Primeira Guerra Mundial, Maria Restituta passou a trabalhar no hospital de Mödling. Ali se tornou enfermeira especializada no centro cirúrgico e alcançou a posição de enfermeira-chefe. Para médicos, colegas e, principalmente, para os enfermos, sua presença significava competência e humanidade. Não via o paciente apenas como alguém submetido a um procedimento médico, mas como uma pessoa a quem deveria oferecer cuidado e respeito.

Então, a história da Europa entrou em uma de suas páginas mais sombrias.

Em março de 1938, a Alemanha nazista anexou a Áustria. O regime nacional-socialista passou a exercer controle sobre a vida pública e a impor suas concepções também sobre instituições e hospitais. Maria Restituta não permaneceu indiferente diante daquele ambiente. Sua fé e sua consciência não lhe permitiam aceitar silenciosamente tudo o que acontecia ao seu redor.

No hospital de Mödling, um dos símbolos desse conflito foi o Crucifixo.

As autoridades nazistas determinaram que os crucifixos fossem retirados dos quartos. Maria Restituta recusou-se a aceitar a ordem. Quando novos espaços hospitalares foram preparados, ela fez colocar novamente os crucifixos nas dependências destinadas aos doentes e não aceitou simplesmente retirá-los diante das proibições impostas pelo regime. O gesto, aparentemente simples, tornou-se um ato público de resistência religiosa.

Sua oposição, porém, não se limitou aos crucifixos. Registros históricos também relacionam sua prisão a textos críticos ao regime e a manifestações contrárias ao nacional-socialismo. A Arquidiocese de Viena registra que dois textos críticos ao regime contribuíram para sua condenação. Em dezembro de 1941, ela havia sido denunciada depois de participar da preparação de um texto de caráter pacifista e patriótico austríaco.

Na Quarta-feira de Cinzas, 18 de fevereiro de 1942, a Gestapo foi buscá-la diretamente no ambiente hospitalar. A mulher que durante anos estivera junto aos enfermos agora era conduzida para a prisão.

Começava um longo período de sofrimento.

Em 29 de outubro de 1942, o Tribunal Popular do regime nazista condenou Maria Restituta à morte por acusações de favorecimento do inimigo e preparação para alta traição. A sentença não seria executada imediatamente. Durante os meses seguintes, ela permaneceu encarcerada, vivendo uma espécie de longa Quaresma, como recordaria posteriormente a memória da Igreja.

Mesmo na prisão, porém, sua identidade não desapareceu. A religiosa continuou sendo aquela mulher firme que aprendera a servir a Deus através do cuidado dos outros. O sofrimento não apagou sua fé.

Chegou, enfim, o dia marcado para a execução.

Era 30 de março de 1943. Maria Restituta foi levada ao local onde seria executada por decapitação, no cárcere de Viena. Antes de morrer, pediu ao capelão que lhe fizesse o sinal da cruz na testa. O gesto retomava, no último instante, o mesmo sinal que ela havia defendido quando os crucifixos foram ameaçados de desaparecer dos quartos do hospital.

Suas últimas palavras transmitidas pela tradição da Igreja resumem a entrega que marcou sua vida:

“Por Cristo vivi, por Cristo quero morrer.”

Maria Restituta não morreu empunhando armas nem procurando vingança. Seu testemunho foi o de uma religiosa, enfermeira e mulher de consciência que se recusou a abandonar aquilo que acreditava ser essencial à sua fé. A cruz que defendera nos quartos dos doentes acompanhou-a até o fim.

Décadas depois, sua história seria reconhecida oficialmente pela Igreja. Em 21 de junho de 1998, em Viena, o Papa João Paulo II beatificou Maria Restituta Kafka juntamente com Jakob Kern e Anton Maria Schwartz, reconhecendo-a como virgem e mártir. A Santa Sé registra sua memória litúrgica em 30 de outubro.

Sua história permanece como a memória de uma mulher que começou servindo aos doentes em um hospital e terminou entregando a própria vida por fidelidade àquilo que professava. A enfermeira que cuidava dos corpos encontrou, no momento extremo, uma maneira de testemunhar também aquilo que guardava no coração.

No hospital, cuidava dos que sofriam. Na prisão, sustentou a própria fé.
Diante da morte, pediu simplesmente o sinal da Cruz.

E assim, Maria Restituta Kafka entrou para a memória da Igreja como a Beata Maria Restituta, a irmã Resoluta, mulher que permaneceu fiel a Cristo, quando permanecer fiel tinha um preço.
Beata Maria Restituta, rogai por nós!

Reflexão

Antes de ser executada, Maria Resoluta pediu para dizer as suas irmãs: "Por Cristo eu vivi, por Cristo desejo morrer". E na frente dos assassinos nazistas, antes que o carrasco levantasse a mão que a mataria, Irmã Restituta disse ao capelão: "Padre, me faça na testa o sinal da cruz". Estes gestos de coragem e de fé fizeram desta mulher um sinal de santidade para a Igreja.

Oração

Deus Pai de amor, que escolhes homens e mulheres para manifestar sua glória ao mundo, dai-nos pela intercessão de Santa Maria Resoluta alcançar as graças necessárias para nosso bem viver neste mundo, preparando-nos para alcançar as glórias da vida eterna. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional