Diocese de Petrópolis - "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho"
São Narciso

São Narciso

O bispo que voltou do deserto

No início do século III, quando a Igreja ainda atravessava os primeiros tempos de sua organização e as comunidades cristãs procuravam conservar fielmente a tradição recebida dos apóstolos, Jerusalém continuava sendo uma cidade de singular importância. Foi nesse cenário que se destacou São Narciso, bispo de Jerusalém, homem lembrado pela austeridade de sua vida, pela firmeza de sua fé e, sobretudo, pela maneira como enfrentou a calúnia sem abandonar a humildade.

As informações sobre sua juventude são escassas. A tradição posterior apresenta Narciso como um cristão de origem não judaica e algumas cronologias antigas tentaram situar seu nascimento no século I. Entretanto, as fontes mais antigas não permitem estabelecer com segurança o ano de seu nascimento. O que Eusébio de Cesareia afirma com maior clareza é que Narciso já era bispo de Jerusalém no final do século II e que permaneceu ligado àquela Igreja por muitos anos.

Narciso aparece nas páginas de Eusébio como um homem de vida profundamente religiosa. Sua existência austera e sua reputação de santidade eram conhecidas pelos cristãos de Jerusalém. Não era apenas um administrador de uma comunidade: era um pastor cuja vida, segundo a tradição preservada pelo historiador, testemunhava a seriedade da fé que professava.

Por volta do final do século II, uma questão importante dividia algumas Igrejas cristãs: a maneira de determinar a celebração da Páscoa. Enquanto comunidades da Ásia conservavam uma prática ligada ao décimo quarto dia do mês lunar, outras Igrejas celebravam o mistério da Ressurreição no domingo. Reuniram-se então diversos bispos para tratar da questão. Em uma dessas assembleias realizadas na Palestina, Narciso, bispo de Jerusalém, e Teófilo, bispo de Cesareia, estiveram entre os responsáveis pela reunião. Eusébio conserva o testemunho de que os bispos reunidos concordaram que a celebração da Ressurreição deveria estar ligada ao Dia do Senhor, o domingo.

Esse episódio mostra que Narciso não vivia isolado das grandes questões enfrentadas pela Igreja de seu tempo. Jerusalém continuava participando da vida mais ampla das comunidades cristãs, e seu bispo estava envolvido nas discussões que procuravam preservar a unidade da celebração litúrgica.

Mas foi outro acontecimento que faria sua memória atravessar os séculos.

Eusébio relata que, durante uma vigília pascal, faltou o óleo necessário para as lâmpadas. A comunidade ficou preocupada diante da necessidade de manter acesa a iluminação da celebração. Segundo a tradição que os cristãos de Jerusalém transmitiram a Eusébio, Narciso pediu que trouxessem água de um poço. Depois de rezar sobre ela, ordenou que fosse colocada nas lâmpadas. O relato afirma que a água teria se transformado em óleo, permitindo que a celebração prosseguisse. Eusébio acrescenta que, em seu tempo, uma pequena quantidade daquele óleo ainda era conservada pelos cristãos como lembrança do acontecimento.

O próprio Eusébio apresenta esse episódio como uma tradição recebida dos habitantes da comunidade. Por isso, ele pertence ao campo dos relatos antigos de milagres associados à memória de Narciso, e não a uma ocorrência que possa ser comprovada por documentação independente.

Pouco depois, a vida do bispo seria marcada por uma provação muito mais dolorosa.

Alguns homens, incapazes de suportar a firmeza de sua conduta, conspiraram contra ele. Para tornar suas acusações mais convincentes, juraram que estavam dizendo a verdade e invocaram sobre si mesmos castigos terríveis caso mentissem. Um afirmou que morreria queimado; outro desejou para si uma doença repugnante; o terceiro declarou que perderia a visão.

Narciso conhecia a própria consciência, mas a calúnia não deixou de lhe causar profunda tristeza. Em vez de responder com vingança, preferiu afastar-se. Abandonou Jerusalém e retirou-se para lugares solitários do deserto, sem revelar onde permaneceria. Segundo Eusébio, ali viveu durante anos, entregue à vida de oração e recolhimento.

Durante sua ausência, os responsáveis pelas Igrejas vizinhas consideraram necessário providenciar outro pastor para Jerusalém. Dius foi escolhido para sucedê-lo; depois vieram Germanio e, posteriormente, Gordius.

A história, porém, não terminou com a partida de Narciso.

Os próprios acusadores acabaram sendo desmentidos pelos acontecimentos. Eusébio narra que os castigos que haviam invocado sobre si mesmos se cumpriram: o primeiro morreu quando um incêndio destruiu sua casa; o segundo foi atingido pela doença que havia mencionado; e o terceiro, arrependido e consumido pelo pranto, acabou perdendo a visão.

É importante compreender esse trecho dentro do modo como Eusébio registra as tradições recebidas pela Igreja de seu tempo. O valor central do episódio está na contraposição entre a calúnia e a vida de Narciso: aqueles que tentaram destruir sua reputação não conseguiram apagar o testemunho de santidade que permanecera entre os fiéis.

Depois de anos de ausência, Narciso voltou a Jerusalém. Sua chegada foi recebida com alegria. Aquele que havia partido sob o peso da suspeita retornava agora reconhecido justamente por sua fidelidade e pela serenidade com que havia suportado a injustiça.

Entretanto, sua idade avançada já não lhe permitia desempenhar sozinho todas as funções do episcopado. Foi então que entrou em sua história Santo Alexandre de Jerusalém.

Alexandre era originalmente bispo de uma comunidade da Capadócia. Ao visitar Jerusalém, acabou permanecendo ali e foi associado a Narciso no governo da Igreja. Eusébio conserva uma passagem de uma carta de Alexandre na qual ele afirma que Narciso, então com 116 anos, continuava unido a ele na oração e exortava os cristãos à concórdia.

Essa informação é uma das razões pelas quais a tradição atribuiu a Narciso uma longevidade extraordinária. Entretanto, a data exata de sua morte não pode ser estabelecida com absoluta segurança. Eusébio permite concluir que ele morreu antes de 216, quando Alexandre aparece como bispo de Jerusalém sem que Narciso seja mais mencionado.

Assim, mais do que a precisão de uma data, permanece a imagem de um pastor que atravessou uma longa existência servindo à Igreja.

Narciso conheceu a honra, a oposição, a solidão e o retorno. Foi acusado injustamente, afastou-se sem buscar vingança e voltou quando já poderia ter escolhido permanecer definitivamente no silêncio do deserto. Em vez disso, reassumiu sua responsabilidade pastoral e, na velhice extrema, aceitou dividir o peso do governo da Igreja com Alexandre.

Sua história é, sobretudo, uma história de perseverança. O homem que foi expulso pela mentira voltou sustentado pela verdade de sua vida. O bispo que conheceu a calúnia respondeu com silêncio. E o ancião que já não podia carregar sozinho o peso do episcopado continuou servindo pela oração.

A memória de São Narciso permanece ligada à antiga Igreja de Jerusalém e ao testemunho de uma vida marcada pela oração, pela penitência, pela paciência diante da injustiça e pela fidelidade à comunidade cristã.
São Narciso, rogai por nós!

Reflexão

Rezemos hoje pelos bispos de nossas dioceses, para que mantendo-se fiéis aos ensinamentos de Jesus Cristo, conservem unidos o rebanho ao seu pastor. Peçamos ao bom Deus que esclareça as mentes de nossos coordenadores e que iluminados pelo Espírito eles sejam sinal de unidade do Povo de Deus.

Oração

Onipotente e poderoso Senhor, que destes a São Narciso muita luz para guiar o rebanho de Cristo na cidade de Jerusalém, mandai o vosso Espírito Santo para nos guardar e mostrar os caminhos que levam a vós. E pela intercessão de são Narciso, concedei nos a graça que vos imploramos. Por Cristo Jesus, amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional