No final do primeiro século, quando a Igreja ainda vivia sua infância histórica, ser cristão significava pertencer a uma comunidade pequena, espalhada pelo mundo romano e frequentemente obrigada a viver com discrição. Foi nesse tempo de silêncio, esperança e incertezas que Santo Evaristo assumiu a responsabilidade de conduzir a Igreja de Roma.
Seu nome aparece entre os primeiros sucessores de São Pedro. O atual elenco oficial dos papas do Vaticano o apresenta como o quinto papa da Igreja Católica e registra seu pontificado com datas aproximadas: início em 96 ou 99 e término em 108. Assim, Evaristo foi o quarto sucessor de Pedro depois de Clemente, ocupando a Sé de Roma na passagem do primeiro para o segundo século.
Pouco sabemos sobre sua vida antes de chegar ao episcopado romano. A tradição o apresenta como grego, e é esse também o dado preservado atualmente pelo Vaticano. Não existem, porém, elementos históricos seguros que permitam reconstruir detalhadamente sua infância, sua formação ou uma passagem específica por Antioquia. Essas informações aparecem em tradições posteriores e devem ser recebidas com a prudência necessária quando se fala dos primeiros séculos cristãos.
O que podemos afirmar com maior segurança é que Evaristo sucedeu a São Clemente na condução da Igreja de Roma. Santo Irineu, escrevendo no século II, apresenta a sucessão dos bispos romanos como uma continuidade da tradição recebida dos apóstolos. Mais tarde, Eusébio de Cesareia, em sua História Eclesiástica, repetiria essa sucessão: Clemente foi seguido por Evaristo, e depois dele veio Alexandre.
Essa sucessão tinha enorme importância. A Igreja ainda não possuía as estruturas que séculos depois se tornariam familiares. Não havia grandes basílicas cristãs espalhadas por Roma, nem uma organização eclesiástica comparável àquela dos tempos posteriores. As comunidades reuniam-se em casas e outros espaços discretos, e a fé era transmitida principalmente pela pregação, pela celebração da Eucaristia, pela oração e pelo testemunho dos cristãos.
Foi nesse cenário que Evaristo exerceu seu ministério. Seu pontificado esteve situado entre os anos finais do imperador Domiciano e os primeiros anos do governo de Trajano, período em que a comunidade cristã de Roma continuava crescendo. As fontes antigas, entretanto, não oferecem informações suficientes para reconstruir detalhadamente suas ações pastorais.
Uma tradição preservada pelo Liber Pontificalis atribui a Evaristo a organização dos chamados tituli, igrejas ou comunidades destinadas ao atendimento dos cristãos de diferentes partes da cidade. A ideia é importante porque aponta para uma Igreja que começava a organizar sua presença pastoral em Roma. Contudo, estudiosos observam que a atribuição dessa estrutura a Evaristo não pode ser tomada de maneira simples como um fato documentalmente comprovado. Os tituli romanos desenvolveram-se gradualmente, e sua forma posterior pertence a um período mais avançado da história da Igreja.
A mesma fonte antiga também lhe atribui algumas disposições relacionadas ao ministério episcopal e à organização das comunidades. Essas informações fazem parte da tradição transmitida pelo Liber Pontificalis, mas não encontram confirmação independente suficiente nas fontes mais antigas. Por isso, mais do que imaginar uma legislação detalhada promulgada por Evaristo, é mais seguro perceber nesse testemunho a memória posterior de uma Igreja que buscava ordenar seus serviços e fortalecer a vida comunitária.
Também é importante recordar que as fontes mais antigas sobre Evaristo são extremamente breves. Santo Irineu, cuja obra é fundamental para conhecer a sucessão dos bispos de Roma, não oferece uma biografia do pontífice. Eusébio também se limita essencialmente a registrar sua posição na sucessão episcopal. Isso explica por que tantas narrativas posteriores procuraram preencher os espaços deixados pelo silêncio dos documentos.
Esse silêncio, entretanto, não diminui a importância de Evaristo. Pelo contrário: ajuda-nos a compreender como era a vida dos primeiros pastores da Igreja. Eles não governavam uma instituição poderosa. Eram responsáveis por comunidades pequenas, compostas por homens e mulheres que precisavam perseverar na fé em uma sociedade que ainda não reconhecia o cristianismo como religião estabelecida.
A tradição cristã antiga também conservou a memória de seu sepultamento junto ao túmulo de São Pedro, no Vaticano. A tradição sobre seu martírio, porém, precisa ser tratada com cautela. Embora Evaristo seja venerado como santo e algumas tradições posteriores o apresentem como mártir durante uma perseguição, não existe evidência histórica suficiente para afirmar como fato comprovado que tenha sido executado durante o governo do imperador Adriano. A Catholic Encyclopedia observa precisamente essa dificuldade: o martírio pertence à tradição, mas não está historicamente demonstrado.
Sua morte é geralmente situada por volta de 107 ou, segundo o atual elenco do Vaticano, dentro do período que termina em 108. As datas exatas dos primeiros pontificados romanos permanecem sujeitas a variações porque os registros daquele período são incompletos.
Assim termina, quase silenciosamente, a história conhecida de Evaristo. Não temos grandes discursos seus conservados, nem cartas extensas, nem relatos detalhados de seus feitos. Temos, sobretudo, um nome inserido na cadeia de sucessão que liga a Igreja de seu tempo aos apóstolos.
Talvez essa seja justamente uma das maiores lições de sua memória. Nem todos os servidores de Deus deixaram obras que a história consegue descrever em detalhes. Alguns permaneceram conhecidos apenas porque sustentaram, por um determinado tempo, a chama que receberam de seus predecessores e a entregaram à geração seguinte.
Evaristo recebeu a Igreja de Roma depois de Clemente e a transmitiu a Alexandre. Entre um e outro, permaneceu fiel à missão que os primeiros pastores receberam: guardar a fé, preservar a comunhão e anunciar Cristo.
No silêncio dos primeiros séculos, seu nome continua sendo lembrado.
Santo Evaristo, rogai por nós!
Muitos dos papas da Igreja foram exemplos de santidade e respeito pelo povo de Deus. Evaristo destacou-se pelo carinho com que dirigiu as primeiras comunidades cristãs, sendo ele próprio um pastor zeloso e preocupado pessoalmente com a evangelização do fiéis. Rezemos também hoje por nosso atual pontífice.
Ó Deus, que concedestes ao Papa Santo Evaristo a graça do Magistério Romano, permiti que, pela sua intercessão, sejamos sempre fiéis ao papa e aos Bispos a ele unidos. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional