O Céu contempla uma Rainha cujo trono não foi conquistado por exércitos, nem sustentado por riquezas ou poder terreno. Sua coroa não nasceu das honras concedidas pelos homens, mas da perfeita fidelidade ao projeto de Deus. Antes de ser exaltada acima dos anjos, ela foi a humilde serva de Nazaré; antes de receber a glória celeste, percorreu o caminho silencioso da obediência, da pobreza, da esperança e da dor. A Igreja a contempla com alegria e a saúda como Nossa Senhora Rainha, porque sua realeza nasce inteiramente da realeza de seu Filho, Jesus Cristo, Rei do Universo.
Essa verdade da fé cristã amadureceu ao longo dos séculos na oração, na liturgia e na reflexão dos Padres da Igreja. Desde os primeiros tempos do cristianismo, os fiéis reconheceram em Maria aquela que ocupa um lugar singular na história da salvação. Se Cristo é o Rei prometido à casa de Davi, anunciado pelos profetas e glorificado em sua Ressurreição, sua Mãe participa, por graça divina, da dignidade real do Filho.
Nas Sagradas Escrituras, o Evangelho segundo São Lucas apresenta o anúncio do anjo Gabriel: o menino que Maria conceberia receberia "o trono de Davi, seu pai", e seu Reino não teria fim. Ao aceitar livremente o desígnio divino com o seu generoso "Faça-se em mim segundo a tua palavra", Maria tornou-se a Mãe do Rei Messiânico. Sua missão, porém, jamais se confundiu com domínio ou privilégio humano. Toda sua grandeza consistiu em servir.
Ao longo da vida de Jesus, ela permaneceu sempre próxima, mas discretamente escondida. Acompanhou o crescimento do Filho em Nazaré, participou das alegrias das bodas de Caná, permaneceu firme ao pé da Cruz quando quase todos haviam fugido e perseverou em oração com os Apóstolos após a Ascensão, conforme registra o livro dos Atos dos Apóstolos: "Todos perseveravam unânimes na oração, juntamente com algumas mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus." (At 1,14).
Sua realeza nasce exatamente desse caminho de discipulado. Maria nunca buscou ocupar o centro da história. Toda sua existência apontava para Cristo. Nas bodas de Caná pronunciou aquelas palavras que permanecem como síntese de toda a espiritualidade mariana: "Fazei tudo o que Ele vos disser." Sua missão nunca foi substituir o Filho, mas conduzir todos até Ele.
A tradição cristã encontrou também no Antigo Testamento uma imagem que ajuda a compreender essa realidade. Nos antigos reinos de Israel, a rainha não costumava ser a esposa do rei, mas sua mãe, conhecida como gebirah, a "grande senhora". Ela ocupava lugar de honra junto ao trono e frequentemente intercedia em favor do povo diante do soberano. Os primeiros escritores cristãos reconheceram nessa figura uma antecipação da missão de Maria junto a Cristo, o Rei eterno.
Diversos Padres da Igreja, entre eles Santo Efrém da Síria, Santo Ambrósio e São Germano de Constantinopla, exaltaram Maria como Rainha por sua íntima participação na obra da Redenção. Mais tarde, São João Damasceno afirmaria que aquela que foi verdadeiramente Mãe do Criador tornou-se também Rainha de toda a criação por desígnio divino.
Essa compreensão foi sendo expressa cada vez mais na liturgia e na devoção do povo cristão. A antiga oração Salve Rainha, composta provavelmente entre os séculos XI e XII, tornou-se uma das mais conhecidas invocações marianas da Igreja. Nela, os fiéis dirigem-se confiantemente àquela que chamam de "Rainha e Mãe de misericórdia", reconhecendo sua constante intercessão junto ao Filho.
Em 1º de novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamou solenemente o dogma da Assunção de Maria na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, declarando que a Imaculada Mãe de Deus, terminado o curso de sua vida terrestre, foi elevada em corpo e alma à glória celeste. Quatro anos depois, aprofundando as consequências desse privilégio, publicou a encíclica Ad Caeli Reginam, em 11 de outubro de 1954.
Nesse importante documento, o Pontífice explicou que Maria é chamada Rainha não por natureza, mas por singular participação na missão redentora de Cristo. Sua realeza é inteiramente dependente da realeza do Filho e manifesta-se sobretudo no exercício do amor materno, da intercessão e da solicitude espiritual por todos aqueles que lhe foram confiados por Jesus na Cruz.
Na mesma ocasião, Pio XII instituiu oficialmente a festa litúrgica de Nossa Senhora Rainha. Anos depois, com a reforma do Calendário Romano realizada por São Paulo VI, a celebração foi transferida para o dia 22 de agosto, exatamente oito dias após a Solenidade da Assunção, evidenciando que aquela que foi elevada à glória participa agora plenamente da realeza de Cristo.
Ao contemplar Maria Rainha, a Igreja não diminui a glória de Jesus; pelo contrário, reconhece ainda mais claramente a grandeza da obra realizada por Deus. Como ensinava o Cardeal Léon-Joseph Suenens: "Toda devoção a Maria termina em Jesus, tal como o rio que se lança ao mar." Toda verdadeira espiritualidade mariana conduz inevitavelmente ao encontro com Cristo.
Também Santo Anselmo expressou essa confiança filial ao afirmar: "É impossível que se perca quem se dirige com confiança a Maria e a quem Ela acolher." Essa certeza não significa que Maria substitua a ação salvadora de Cristo, mas reconhece a eficácia de sua intercessão materna junto ao único Redentor.
Ao longo dos séculos, inúmeros santos testemunharam essa realidade. São Bernardo de Claraval ensinava que Deus quis distribuir suas graças por meio da maternidade espiritual de Maria. São Luís Maria Grignion de Montfort aprofundou essa mesma convicção ao afirmar que o caminho mais seguro para chegar a Jesus é caminhar com Maria. Séculos depois, São João Paulo II resumiria essa espiritualidade em seu lema episcopal e pontifício: Totus Tuus — "Todo teu" — inspirado precisamente na entrega filial à Mãe de Cristo.
Entretanto, a verdadeira realeza de Maria não consiste em exercer poder conforme os critérios do mundo. Ela reina porque ama. Reina porque intercede. Reina porque continua conduzindo os filhos da Igreja ao encontro daquele que é o único Senhor da história.
Sua coroa foi tecida pela humildade de Nazaré, fortalecida pela fidelidade durante a vida oculta, purificada pelas lágrimas derramadas aos pés da Cruz e glorificada pela Ressurreição do Filho. Aquela que um dia se apresentou apenas como a serva do Senhor tornou-se, por graça divina, Rainha do Céu e da Terra.
Por isso, quando a Igreja canta "Salve, Rainha", não dirige seus olhos para uma soberana distante, mas para uma Mãe que continua próxima de seus filhos. Do Céu, ela permanece exercendo sua missão materna, sustentando os que vacilam, consolando os aflitos, fortalecendo os que lutam e conduzindo todos ao único Rei que jamais passará.
Celebrar Nossa Senhora Rainha é contemplar o triunfo da humildade elevada pela graça. É reconhecer que Deus exalta aqueles que se fazem pequenos. E é renovar a esperança de que, seguindo os passos daquela que primeiro acreditou, toda a Igreja caminhará um dia para participar, com Cristo e sua Mãe, da glória eterna preparada para os que permanecem fiéis ao Evangelho.
Nossa Senhora Rainha, rogai por nós!
Instituída pelo Papa Pio XII, celebramos hoje a Memória de Nossa Senhora Rainha, que visa louvar o Filho, pois já dizia o Cardeal Suenens: “Toda devoção a Maria termina em Jesus, tal como o rio que se lança ao mar”.
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral