Diocese de Petrópolis - "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho"
Santa Maria Bertilla Boscardin

Santa Maria Bertilla Boscardin

A santidade escondida no trabalho e no silêncio

Em 6 de outubro de 1888, numa família camponesa de Gioia di Brendola, na província italiana de Vicenza, nasceu uma menina que receberia no batismo o nome de Anna Francesca Boscardin. A região do Vêneto era marcada pelo trabalho árduo da terra, pelas famílias numerosas e por uma vida simples, na qual a fé fazia parte do cotidiano. Foi nesse ambiente que cresceu aquela que a Igreja conheceria mais tarde como Santa Maria Bertilla.

Sua infância não foi marcada por feitos extraordinários. Ao contrário, a futura santa cresceu entre os trabalhos domésticos, as atividades do campo e uma formação escolar limitada pelas condições de sua família. Desde cedo, porém, encontrou no catecismo uma fonte especial de conhecimento e de vida espiritual. Pio XII, ao recordar sua trajetória por ocasião da beatificação, destacou justamente esse pequeno livro que acompanhou Bertilla durante toda a existência. Ela o estudava, meditava e, ainda muito jovem, procurava ensiná-lo às companheiras.

A fé que recebia em casa e na paróquia foi tomando forma dentro dela. Não era uma espiritualidade feita de manifestações extraordinárias, mas de pequenos atos repetidos com fidelidade. A oração depois do trabalho, a obediência, o silêncio e o desejo de fazer bem aquilo que lhe era confiado foram formando lentamente sua personalidade.

Quando chegou o momento de escolher seu caminho, Anna Francesca contou com a orientação do pároco. Em 1905, ingressou em Vicenza na Congregação das Irmãs Mestras de Santa Doroteia, Filhas dos Sagrados Corações. Ao fazer a profissão religiosa, recebeu o nome de Maria Bertilla. A jovem camponesa começava então uma nova etapa, sem imaginar que sua santidade seria construída precisamente nas tarefas que aos olhos do mundo pareciam pequenas.

Nos primeiros tempos da vida religiosa, realizou trabalhos simples dentro da comunidade. Depois, encaminhou-se para a enfermagem e foi enviada ao hospital de Treviso. Ali encontraria o campo onde sua vocação se tornaria mais visível: os corredores hospitalares, os quartos dos doentes, o contato diário com a dor humana.

Bertilla não procurava os serviços mais fáceis. Segundo os testemunhos conservados sobre sua vida, assumia inclusive os horários noturnos para aliviar suas companheiras. Queria servir sem buscar reconhecimento. Em seus apontamentos espirituais, expressava o desejo de ocupar o último lugar, aceitar os trabalhos mais humildes e deixar para os outros aquilo que pudesse trazer satisfação ou prestígio.

Foi assim que sua santidade começou a adquirir uma forma muito concreta. Para Bertilla, cuidar de um enfermo não era simplesmente cumprir uma obrigação profissional. Era uma maneira de servir a Deus através de uma pessoa que sofria. João XXIII, durante sua canonização, destacou justamente essa presença silenciosa da religiosa nos corredores do hospital de Treviso, onde consolava, tranquilizava e cuidava dos doentes com competência e discrição.

A doença, entretanto, também entraria em sua história.

Aos 22 anos, Bertilla foi submetida a uma primeira operação para tratar um tumor. Recuperada, voltou ao trabalho. A experiência da própria enfermidade poderia ter diminuído seu ritmo, mas ela retomou as atividades que realizava antes. A dor, em vez de afastá-la de sua vocação, tornou-se outra realidade que ela aprendeu a oferecer em silêncio.

Então veio a Primeira Guerra Mundial.

Treviso encontrava-se em uma região atingida pelas consequências do conflito, e a situação tornou-se perigosa para o hospital. Os doentes foram transferidos para a Lombardia, e Bertilla acompanhou-os. Longe de seus enfermos habituais e enfrentando circunstâncias difíceis, recebeu uma nova tarefa: trabalhar na lavanderia. Para alguém que havia se dedicado à enfermagem, a mudança poderia parecer uma humilhação. Ela, porém, procurou enxergar naquela circunstância outra oportunidade de obediência.

“Estou contente porque faço a vontade de Deus”, escreveu.

Essa frase resume uma parte essencial de sua espiritualidade. Bertilla não precisava escolher o lugar para servir; bastava-lhe saber que havia ali uma necessidade e uma tarefa que lhe fora confiada.

Pio XII chamou esse caminho de “via dos carros, a mais comum”. A expressão traduzia a singularidade de sua santidade: Bertilla não viveu, segundo o testemunho apresentado pelo Papa, uma existência marcada por êxtases ou manifestações extraordinárias. Sua união com Deus cresceu no silêncio, no trabalho, na oração, na obediência e no cuidado pelos outros.

Depois da guerra, retornou a Treviso e retomou o serviço junto aos doentes. Entretanto, a enfermidade que já havia enfrentado anteriormente continuava avançando. Uma segunda intervenção cirúrgica tornou-se necessária. O corpo, enfraquecido por anos de trabalho e pela doença, já não conseguiu resistir.

Em 20 de outubro de 1922, no hospital de Treviso, Maria Bertilla Boscardin morreu aos 34 anos. Sua vida havia sido breve aos olhos humanos, mas a fama de sua bondade começou a crescer rapidamente depois de sua morte. O Martirológio Romano a recorda como a religiosa que, em Treviso, dedicou-se à saúde dos enfermos no corpo e no espírito.

O reconhecimento da Igreja veio algumas décadas depois. Pio XII beatificou Maria Bertilla em 8 de junho de 1952. Nessa ocasião, apresentou-a como uma mulher simples, uma filha da terra italiana que havia encontrado a perfeição cristã no caminho ordinário da vida.

Nove anos depois, em 11 de maio de 1961, João XXIII a canonizou solenemente. Em sua homilia, o Papa destacou sua humildade, sua paciência diante dos sofrimentos e, sobretudo, sua caridade para com os enfermos. Para ele, a antiga camponesa do Vêneto havia se tornado uma luz precisamente porque sua vida demonstrava que a santidade não depende necessariamente de grandes feitos aos olhos humanos.

Hoje, suas relíquias são veneradas em Vicenza, na Casa-Mãe de sua Congregação, e sua memória litúrgica é celebrada em 20 de outubro.

Santa Maria Bertilla ensina uma lição silenciosa e, justamente por isso, profunda: há vidas que não fazem barulho, mas transformam tudo ao redor. Sua grandeza não nasceu de procurar acontecimentos extraordinários, mas de transformar cada obrigação cotidiana em oportunidade de amor.

Entre os campos de Brendola e os corredores do hospital de Treviso, entre a enfermagem e a lavanderia, entre a saúde e a doença, ela escolheu permanecer fiel.

Sua estrada foi simples.
Foi a via dos carros.
E por essa estrada comum, percorrida com humildade, silêncio e amor, Maria Bertilla chegou à santidade.
Santa Maria Bertilla Boscardin, rogai por nós!

Reflexão

Uma simples camponesa pôde demonstrar, com suas atitudes diárias, que mesmo sem êxtases, sem milagres, sem grandes feitos, o ser humano traz em si a santidade e a marca de Deus em sua vida. Modelo de recolhimento e de oração, durante a vida teve uma profunda união com Deus, no silêncio e no trabalho. Se vivermos com pureza e fé, a graça divina vai se manifestar em cada detalhe da nossa vida, da mesma forma que se manifestou na vida de Maria Bertilla.

Oração

Ó Deus, Pai todo misericórdia, ao recordarmos a memória de santa Maria Bertilla, nós vos pedimos que, seguindo seus passos na caminhada rumo ao Reino definitivo, possamos nos dedicar sempre mais no serviço generoso à sua Igreja na pessoa dos nossos irmãos mais abandonados e necessitados. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional