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São João Eudes

São João Eudes

São João Eudes: o sacerdote que ensinou a Igreja a contemplar os Corações de Jesus e de Maria

Na história da espiritualidade cristã existem homens cuja missão não consiste apenas em responder aos desafios do seu próprio tempo, mas em preparar o coração da Igreja para os séculos futuros. São João Eudes pertence a esse pequeno grupo de grandes apóstolos que, movidos por profunda intimidade com Cristo, souberam transformar a oração em ação, a contemplação em missão e o amor de Deus em uma escola permanente de santidade.

Não por acaso, séculos mais tarde, São Pio X o definiria com palavras que resumem sua extraordinária missão: "autor, pai, doutor, apóstolo, promotor e propagandista da devoção litúrgica aos Sagrados Corações de Jesus e Maria." Título que não exaltava apenas um teólogo, mas um pastor cuja vida inteira foi consumida pelo desejo de conduzir almas ao infinito amor de Deus.

João Eudes nasceu em 14 de novembro de 1601, na pequena aldeia de Ri, na Normandia, França. Era o primogênito dos seis filhos de Isaac Eudes e Marta Corbin, uma família profundamente cristã que educou os filhos na simplicidade do trabalho, na oração e na confiança na Providência.

Ainda menino, demonstrava uma piedade incomum para sua idade. Enquanto muitos sonhavam com honras e riquezas, João encontrava alegria no silêncio da oração, na participação da vida sacramental e na meditação da Palavra de Deus. Aqueles primeiros anos revelavam discretamente o sacerdote que um dia incendiaria a França com o fervor das missões populares.

Aos quatorze anos ingressou no colégio dos jesuítas em Caen. Seus pais desejavam vê-lo administrar as propriedades da família e constituir um lar, mas o jovem já havia oferecido sua vida inteiramente a Deus, fazendo voto de castidade e discernindo, pouco a pouco, sua vocação sacerdotal.

Recebeu as ordens menores em 1621 e aprofundou os estudos de Teologia, preparando-se para servir ao povo cristão. Dois anos mais tarde, após vencer a resistência inicial de sua família, ingressou na Congregação do Oratório de Jesus, fundada por Pierre de Bérulle, cujo objetivo era renovar espiritualmente o clero francês e promover maior dignidade na vida sacerdotal.

Ordenado sacerdote em 1625, entregou-se imediatamente à pregação, tornando-se um dos missionários mais notáveis de sua geração.

Seu ministério, porém, seria rapidamente colocado à prova.

Em 1627, uma terrível epidemia de peste devastou a Normandia. Enquanto muitos fugiam das cidades contaminadas, João Eudes escolheu permanecer entre os enfermos. Durante meses percorreu hospitais improvisados, visitou casas isoladas, administrou os sacramentos, consolou famílias e preparou inúmeros moribundos para o encontro definitivo com Deus.

Quando uma nova epidemia atingiu Caen em 1631, decidiu afastar-se temporariamente da comunidade para proteger seus irmãos religiosos do contágio. Passou a viver isolado no campo, recebendo discretamente os alimentos enviados pelo convento, enquanto continuava dedicando-se aos doentes sempre que necessário.

Essa disposição para colocar a própria vida em risco tornava ainda mais eloquente aquilo que anunciava do púlpito.

Ao longo da década seguinte percorreu inúmeras cidades francesas conduzindo missões populares. Pregava durante horas, despertando consciências adormecidas pela rotina espiritual. Contudo, sabia que a conversão verdadeira não terminava com um sermão.

Costumava dizer:

"O pregador sacode os ramos; o confessor é quem apanha os pássaros."

Por isso, logo após cada pregação, dirigia-se ao confessionário, onde permanecia longas horas reconciliando pecadores com Deus.

Foi exatamente durante essas missões que percebeu uma dolorosa realidade social.

Muitas mulheres que desejavam abandonar a prostituição não encontravam qualquer apoio para recomeçar a vida. Sem família, trabalho ou acolhida, frequentemente retornavam ao ambiente do qual tentavam fugir.

Sensível a esse sofrimento, João começou hospedando-as provisoriamente em famílias cristãs. Logo compreendeu, porém, que era necessária uma obra permanente.

Assim nasceram as primeiras casas de acolhimento destinadas à recuperação dessas mulheres. Da iniciativa surgiu posteriormente a Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Refúgio, que mais tarde daria origem, no século XIX, à Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, conhecida mundialmente pelo serviço às mulheres em situação de vulnerabilidade.

Enquanto realizava essas obras de misericórdia, outra preocupação crescia em seu coração.

As inúmeras viagens missionárias permitiram-lhe constatar que muitos sacerdotes careciam de adequada formação espiritual e pastoral. Convencido de que a renovação do povo começava pela renovação do clero, passou anos rezando, refletindo e buscando discernimento.

Finalmente, em 1643, deixou o Oratório para fundar uma nova comunidade composta por sacerdotes diocesanos.

No dia da Solenidade da Anunciação, em Caen, nasceu oficialmente a Congregação de Jesus e Maria, conhecida posteriormente como Congregação dos Eudistas.

Sua missão era clara: formar sacerdotes profundamente enraizados na vida interior, preparados para evangelizar, celebrar dignamente os sacramentos e conduzir o povo à santidade.

João e seus primeiros companheiros consagraram a nova congregação à Santíssima Trindade, reconhecendo nela a origem e o fim de toda vocação sacerdotal.

No centro dessa espiritualidade encontrava-se um símbolo profundamente querido ao fundador: o Coração de Jesus inseparavelmente unido ao Coração de Maria.

Para ele, os dois Corações manifestavam perfeitamente o amor redentor de Cristo e a perfeita união da Mãe com a obra da salvação.

Muito antes das revelações recebidas por Santa Margarida Maria Alacoque, São João Eudes já promovia publicamente essa espiritualidade.

Instituiu a celebração litúrgica do Santo Coração de Maria em sua congregação e preparou textos próprios para o culto do Sagrado Coração de Jesus.

Em 31 de agosto de 1670, realizou-se, no seminário de Rennes, a primeira celebração litúrgica pública em honra do Sagrado Coração de Jesus organizada segundo seus formulários. Posteriormente, essa devoção espalhou-se por diversas dioceses francesas.

No ano seguinte publicou A Devoção ao Adorável Coração de Jesus, obra que consolidava teologicamente essa espiritualidade e oferecia textos litúrgicos para sua celebração.

Por essa razão, Leão XIII reconheceria posteriormente que São João Eudes foi quem introduziu oficialmente o culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Também o decreto de sua beatificação afirmaria que ele foi o primeiro, por inspiração divina, a prestar-lhes culto litúrgico organizado.

Durante seus últimos anos continuou escrevendo, pregando, formando sacerdotes e consolidando os seminários da Congregação.

Sua última grande obra foi O Admirável Coração da Santíssima Mãe de Deus, fruto de muitos anos de oração e estudo. Terminou-a apenas um mês antes de concluir também sua própria peregrinação terrestre.

No dia 19 de agosto de 1680, cercado pela serenidade daqueles que entregaram completamente a vida ao Senhor, São João Eudes partiu para a eternidade.

Sua influência, porém, apenas começava.

Os seminários por ele fundados continuaram formando gerações de sacerdotes; suas obras espirituais alimentaram a devoção de incontáveis fiéis; sua compreensão teológica dos Corações de Jesus e de Maria preparou o caminho para o extraordinário desenvolvimento dessa espiritualidade na Igreja.

Canonizado pelo Papa Pio XI em 1925 e inscrito no calendário litúrgico romano em 1928, São João Eudes permanece como um dos grandes reformadores espirituais do século XVII. Sua existência testemunha que a verdadeira renovação da Igreja nasce sempre do mesmo lugar: de corações totalmente configurados ao Coração de Cristo, onde o amor se torna missão, a misericórdia se faz serviço e a santidade deixa de ser um ideal distante para tornar-se vida oferecida, dia após dia, em favor da salvação das almas.
São João Eudes, rogai por nós!

Reflexão

O santo de hoje, são João Eudes, foi um grande missionário do século dezessete. Suas ações são lembradas até os dias de hoje, sobretudo através das congregações que ele fundou para cuidar dos mais abandonados. O carisma missionário de João Eudes nos inspira a buscar com mais esforço o caminho do evangelho e a proclamar em alta voz as maravilhas de Deus.

Oração

Ó Pai, pela vossa misericórdia, São João Eudes anunciou as insondáveis riquezas de Cristo. Concedei-nos, por sua intercessão, crescer no vosso conhecimento e viver na vossa presença segundo o Evangelho, frutificando em boas obras. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional