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Santa Clara

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Santa Clara de Assis: a luz que escolheu a pobreza para iluminar o mundo

Algumas vidas parecem nascer envoltas por uma promessa que somente o tempo será capaz de revelar. Assim aconteceu com Clara de Assis. Ainda antes de seu nascimento, a tradição conserva a memória de uma inspiração recebida por sua mãe, Ortolana. Enquanto rezava, ouviu interiormente que a filha que trazia no ventre iluminaria o mundo com uma luz que jamais se apagaria. Por isso, quando a menina veio ao mundo, em 1193, na cidade de Assis, recebeu o nome de Clara — aquela destinada a irradiar claridade onde houvesse escuridão.

Nascida em uma das mais importantes famílias da nobreza italiana, Clara cresceu cercada de conforto, prestígio e das expectativas próprias de sua condição social. Seu pai, Favorino Scifi, pertencia à aristocracia local; sua mãe distinguia-se pela profunda vida de oração e pelas frequentes obras de caridade. Foi dela que a jovem herdou o olhar compassivo voltado para os pobres e o desejo de colocar Deus acima de todas as riquezas.

Ainda muito jovem, Clara já chamava atenção pela delicadeza de seu coração.

Enquanto muitas moças de sua posição eram preparadas para alianças políticas e casamentos vantajosos, ela preferia repartir esmolas, dedicar tempo aos necessitados e cultivar uma intensa vida de oração. A beleza que mais desejava não era a das vestes nobres que usava, mas aquela que nasce de uma alma inteiramente voltada para Deus.

Foi nesse contexto que a Providência colocou em seu caminho um homem cuja própria existência transformava os corações.

Chamava-se Francisco de Assis.

No tempo da Quaresma de 1212, Francisco pregou na Igreja de São Jorge. Sua voz não possuía o refinamento dos grandes oradores, mas carregava a força do Evangelho vivido sem reservas. Falava de Cristo pobre, humilde e crucificado. Falava da alegria de abandonar tudo para possuir somente Deus.

Clara ouviu aquelas palavras.

E jamais voltou a ser a mesma.

Secretamente procurou Francisco e abriu-lhe o coração. Contou-lhe o desejo profundo de entregar toda a vida a Cristo, renunciando aos privilégios que o nascimento lhe proporcionara. O santo reconheceu naquele anseio uma verdadeira vocação e prometeu ajudá-la a responder plenamente ao chamado de Deus.

Poucos dias depois aconteceu um dos episódios mais conhecidos de sua história.

Era o Domingo de Ramos.

Na Catedral de Assis, todos os fiéis aproximavam-se para receber o ramo de oliveira abençoado. Clara permaneceu discretamente em seu lugar, vencida pela timidez. Observando aquela jovem imóvel entre a multidão, o bispo desceu os degraus do presbitério e levou pessoalmente o ramo até suas mãos.

Sem que ninguém imaginasse, aquele simples gesto antecedia uma decisão que mudaria sua existência para sempre.

Na noite daquele mesmo dia, Clara deixou silenciosamente a casa paterna.

Percorreu cerca de dois quilômetros até a pequena igreja da Porciúncula, onde Francisco e seus companheiros a aguardavam com tochas acesas. Diante do altar de Santa Maria dos Anjos, entregou definitivamente sua vida a Deus.

Ali trocou os ricos vestidos da nobreza por uma simples túnica de tecido grosseiro, cingida por uma corda. Francisco cortou seus longos cabelos como sinal da consagração total ao Senhor. A jovem que poderia ter vivido entre castelos escolhia, livremente, a pobreza do Evangelho.

Como ainda não existia uma comunidade feminina fundada por Francisco, Clara foi acolhida provisoriamente pelas beneditinas do mosteiro de São Paulo das Abadessas, próximo a Bastia.

Sua família reagiu imediatamente.

Os parentes, que haviam preparado para ela um casamento vantajoso, dirigiram-se ao mosteiro decididos a levá-la de volta à força. Segundo a tradição, Clara abraçou-se ao altar com tamanha firmeza que rasgou as toalhas ao ser puxada. Descobrindo a cabeça, mostrou os cabelos já cortados e declarou serenamente que pertencia agora unicamente a Cristo.

Nenhuma ameaça conseguiu fazê-la voltar atrás.

Pouco tempo depois, sua irmã Inês seguiu o mesmo caminho.

Também ela enfrentou forte oposição familiar, mas perseverou na vocação. Mais tarde, outras mulheres começaram a procurar Clara desejando viver a mesma entrega radical ao Evangelho.

Francisco então instalou o pequeno grupo junto à igreja de São Damião, nos arredores de Assis.

Aquele lugar simples tornar-se-ia o berço de uma nova forma de vida religiosa feminina.

Clara foi escolhida superiora da comunidade, função que exerceria durante mais de quarenta anos. Nunca compreendeu essa responsabilidade como autoridade, mas como serviço. Chamava a si mesma de serva das irmãs e esforçava-se para dar exemplo em tudo.

Sua vida era marcada por impressionante austeridade.

Dormia sobre o chão, usava roupas extremamente simples, caminhava descalça sempre que possível, alimentava-se com grande sobriedade e dedicava longas horas à oração silenciosa diante do Santíssimo Sacramento. O silêncio era cuidadosamente observado, sendo interrompido apenas quando a caridade ou a necessidade da vida comunitária o exigiam.

Entretanto, sua pobreza nunca era triste.

As irmãs testemunhavam sua alegria constante, sua delicadeza no trato com todas e sua confiança absoluta na Providência Divina.

Clara desejava preservar integralmente o ideal recebido de Francisco.

Por isso lutou durante anos para que sua comunidade jamais fosse obrigada a possuir bens materiais. Diversas autoridades eclesiásticas julgavam necessário garantir propriedades para assegurar a sobrevivência das religiosas.

Ela, porém, desejava depender somente de Deus.

Em 1228, o Papa Gregório IX concedeu às irmãs aquilo que ficou conhecido como Privilégio da Pobreza, reconhecendo oficialmente que nenhuma autoridade poderia obrigá-las a possuir propriedades contra sua vontade.

Foi uma conquista extraordinária.

Mais tarde, a própria Clara redigiu a Regra de sua Ordem, tornando-se a primeira mulher da história da Igreja a escrever uma regra monástica aprovada oficialmente para religiosas.

Após muitos anos de espera, o Papa Inocêncio IV confirmou essa Regra apenas dois dias antes de sua morte, permitindo-lhe partir sabendo que o ideal franciscano permaneceria preservado.

Enquanto isso, o movimento crescia rapidamente.

Conventos das Clarissas multiplicavam-se pela Itália, França, Alemanha e por outras regiões da Europa. Entre as fundações mais importantes destacou-se a realizada em Praga por Santa Inês da Boêmia, grande amiga e correspondente de Clara. As cartas trocadas entre ambas permanecem até hoje como preciosos testemunhos da espiritualidade franciscana.

A partir de 1224, a saúde da santa começou a enfraquecer.

Longos anos de enfermidade limitaram seus movimentos, mas jamais diminuíram sua intensidade espiritual.

Em 1226, quando São Francisco faleceu, Clara permaneceu recolhida em sua cela. Segundo a tradição, Deus concedeu-lhe a graça de contemplar, projetadas diante de seus olhos, as cerimônias fúnebres realizadas na Igreja de São Francisco.

Anos antes, durante uma noite de Natal, recebera experiência semelhante, vendo de sua cela a celebração do Ofício Divino e o presépio na Basílica de Santa Maria dos Anjos, embora estivesse fisicamente impossibilitada de participar.

Esses episódios levaram a Igreja, muitos séculos depois, a reconhecê-la como padroeira da televisão e de todos os profissionais da comunicação audiovisual. Em 1958, o Papa Pio XII oficializou esse título, vendo nessas visões uma extraordinária antecipação dos meios modernos de transmissão de imagens.

Outro acontecimento tornou ainda mais conhecida sua confiança na presença de Cristo na Eucaristia.

Em 1240, tropas sarracenas que integravam o exército do imperador Frederico II aproximaram-se de Assis e ameaçaram invadir o Mosteiro de São Damião.

Mesmo gravemente enferma, Clara pediu que lhe trouxessem o ostensório contendo o Santíssimo Sacramento.

Levando Jesus Eucarístico diante dos invasores, rezou com profunda confiança pela proteção de sua comunidade e da cidade.

As antigas crônicas narram que o ataque foi interrompido, fortalecendo ainda mais entre os fiéis a convicção da poderosa intercessão da santa e de sua extraordinária fé na presença real de Cristo na Eucaristia.

Depois de décadas consumidas pela oração, pela penitência e pelo amor às irmãs, aproximava-se o fim de sua peregrinação terrestre.

No dia 11 de agosto de 1253, aos sessenta anos de idade, rodeada por suas religiosas, Clara entregou serenamente sua alma a Deus.

Conta a tradição que suas últimas palavras foram uma ação de graças: "Bendito sejais, Senhor, por me terdes criado."

A fama de sua santidade espalhou-se imediatamente.

Menos de dois anos depois, em 1255, o Papa Alexandre IV proclamou oficialmente sua canonização, reconhecendo que aquela jovem que abandonara todas as riquezas terrenas havia se tornado uma das maiores riquezas espirituais da Igreja.

Hoje, passados tantos séculos, a luz anunciada antes mesmo de seu nascimento continua brilhando.

Santa Clara mostrou ao mundo que a verdadeira liberdade nasce do desapego, que a pobreza escolhida por amor a Cristo torna-se fonte de alegria e que a oração silenciosa possui força capaz de sustentar a Igreja inteira.

Ao lado de São Francisco, permanece como um dos mais luminosos testemunhos do Evangelho vivido em sua radicalidade, recordando a cada geração que quem nada guarda para si acaba possuindo o único tesouro que jamais pode ser perdido: o próprio Deus.
Santa Clara, rogai por nós!

Reflexão

Nos diz a tradição que antes de morrer Clara assim rezou: “Vai em paz minha alma, pois você tem um guia seguro que lhe mostrará o caminho, Aquele que lhe criou, santificou, amou e não cessou de vigiá-la com a ternura de uma mãe que zela pelo filho único de seu amor. Dou graças e bendigo ao Senhor porque Ele criou a minha vida”. Assim rezando partiu para o Pai.

Oração

Creio firmemente que sabeis que o reino dos céus não é prometido e dado pelo Senhor senão aos pobres, porque, quando se ama uma coisa temporal, perde-se o fruto da caridade. Não se pode servir a Deus e às riquezas, porque ou se ama a um e se odeia às outras, ou serve-se a Deus e desprezam-se as riquezas. Não dá para ser glorioso no mundo e lá reinar com Cristo. Ajudai-nos a escolher o melhor caminho. Amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional