Diocese de Petrópolis - "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho"
São Bruno

São Bruno

O homem que escolheu viver para Deus

No coração das montanhas, onde o silêncio parece falar mais alto do que qualquer palavra, nasceu uma das experiências contemplativas mais austeras da história da Igreja. Ali, entre rochedos, florestas e neve, São Bruno encontrou aquilo que sua alma procurava havia anos: um lugar onde pudesse abandonar as realidades passageiras e dedicar-se inteiramente a Deus. Dessa busca nasceu a Ordem dos Cartuxos, uma das mais rigorosas famílias monásticas da Igreja, cuja forma de vida permanece profundamente marcada pelo silêncio, pela solidão e pela contemplação. A própria Santa Sé reconheceu na vocação cartusiana a continuidade de uma forma de vida iniciada por Bruno e conservada ao longo dos séculos.

Bruno nasceu por volta de 1030, em Colônia, numa família de boa condição. Ainda jovem, demonstrou grande inteligência e inclinação para os estudos. Seu caminho o levou a Reims, na França, onde se tornou professor e, posteriormente, ocupou importantes funções eclesiásticas. Foi reconhecido como homem de grande formação intelectual e profunda vida cristã.

Durante anos, porém, Bruno percebeu crescer dentro de si um desejo que nenhuma honra acadêmica ou eclesiástica conseguia satisfazer. Queria buscar aquilo que considerava o único bem verdadeiramente necessário: Deus.

A decisão amadureceu até que, por volta de 1080, deixou a carreira que poderia lhe proporcionar prestígio e segurança. Procurou primeiro uma experiência de vida solitária junto a outros religiosos, mas compreendeu que sua vocação exigia um recolhimento ainda mais profundo. Reuniu então seis companheiros e partiu em busca de um lugar onde pudessem viver inteiramente dedicados à oração e à contemplação.

Foi assim que chegaram a Grenoble, onde procuraram São Hugo, bispo da cidade. A tradição cartusiana conserva um episódio que se tornou inseparável da história de sua fundação: antes da chegada de Bruno e seus companheiros, o bispo teria tido um sonho no qual contemplara sete estrelas conduzindo-o para uma região deserta das montanhas. Quando Bruno apareceu diante dele acompanhado de seis homens, Hugo teria reconhecido naquele grupo as sete estrelas de sua visão e compreendido que aquele era o lugar para onde Deus os conduzia.

O lugar escolhido ficava numa região montanhosa chamada Chartreuse, nos Alpes do Delfinado. Era uma paisagem rude, isolada e difícil, muito distante do conforto das cidades. Para Bruno, porém, aquela solidão não era um abandono: era uma oportunidade de encontro.

Em 1084, Bruno e seus seis companheiros estabeleceram-se naquele deserto. Ali ergueram pequenas celas e um lugar para a oração. Nascia a primeira comunidade cartusiana.

A vida era austera. O silêncio ocupava grande parte dos dias. A oração pessoal e comunitária, a celebração litúrgica, o trabalho manual e a leitura espiritual formavam o ritmo daquela existência escondida. Cada irmão vivia grande parte do tempo em sua cela, encontrando os demais sobretudo nos momentos determinados pela vida comunitária. Era uma forma de consagração que procurava colocar Deus no centro de cada hora.

Bruno não desejava criar uma obra para a própria glória. Desejava simplesmente encontrar Deus. Em uma de suas cartas, expressou o núcleo dessa vocação ao falar do abandono das coisas passageiras para alcançar as eternas. Séculos depois, Bento XVI reconheceria nessa expressão uma síntese da espiritualidade cartusiana: deixar aquilo que passa para buscar a união de vida com Deus.

Mas o fundador ainda teria de enfrentar uma prova inesperada.
Um de seus discípulos tornou-se papa: Urbano II. O novo pontífice chamou Bruno para junto de si, desejando contar com seu conselho e sua experiência. Bruno obedeceu. Deixou temporariamente a solidão da Cartuxa e seguiu para Roma.

Ali, porém, sua vocação contemplativa permaneceu viva. Bruno não desejava abandonar a vida de recolhimento. Tampouco aceitou o episcopado quando lhe foi proposto. Depois de insistir junto ao Papa, recebeu finalmente permissão para retornar à vida religiosa. Esse episódio revela um aspecto importante de sua personalidade espiritual: Bruno era profundamente ligado à Igreja, mas também profundamente consciente da vocação que havia recebido.

Ele então partiu para o sul da Itália. Na Calábria, encontrou outro lugar de solidão e fundou uma nova comunidade, Santa Maria da Torre, onde passou os últimos anos de sua existência.

Ali, longe dos centros de poder e das disputas do mundo, continuou a viver aquilo que havia procurado desde a juventude: oração, silêncio, penitência e contemplação.

São Bruno morreu em 6 de outubro de 1101, na Calábria, “ardendo de amor divino”, como recordaria séculos depois São João Paulo II ao celebrar o nono centenário de sua morte.

Não deixou tratados numerosos nem buscou construir uma obra marcada pelo ruído. Deixou uma vida. E deixou uma família religiosa que atravessou os séculos conservando o essencial de seu carisma.

A Cartuxa continua sendo, na Igreja, um testemunho singular de que o silêncio também pode ser uma forma de anúncio. Em meio a um mundo que frequentemente mede a importância das pessoas pelo que produzem, São Bruno aponta para outra direção: existe uma fecundidade que nasce simplesmente de permanecer diante de Deus.

Sua vida recorda que nem toda missão precisa ser realizada nas praças, nos púlpitos ou no meio das multidões. Há também uma missão escondida, silenciosa, sustentada pela oração. Os Cartuxos, em suas celas e mosteiros, continuam apresentando a Deus as necessidades da Igreja e do mundo.

São Bruno descobriu que, para encontrar o eterno, às vezes é preciso aprender a deixar para trás aquilo que passa.

E foi justamente no silêncio das montanhas que sua voz atravessou os séculos.
São Bruno, rogai por nós!

Reflexão

A austeridade de vida é a marca registrada dos cartuxos. Infelizmente o número de pessoas que resolvem viver este estilo de vida é cada vez mais limitado. A absoluta entrega a vontade de Deus, o silêncio exterior e interior, a simplicidade de vida fazem destes homens verdadeiros testemunhos para uma humanidade dedicada quase exclusivamente às vaidades desmedidas e ao bem estar acima de tudo.

Oração

São Bruno, que adotastes como regra de vida a oração, o trabalho, o estudo e a pobreza, que fundastes uma ordem monástica para uma ainda maior intimidade com Deus, inspirai-nos também a uma vida contemplativa esquecendo-nos bem mais das ocupações terrenas e nos ocupando mais com nossa união cada vez mais íntima com nosso Deus e Criador. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional