Muito antes de o madeiro da cruz erguer-se sobre o Gólgota, houve um instante em que o céu pareceu abrir suas cortinas para revelar, ainda que por poucos momentos, a verdadeira majestade do Filho de Deus. Não foi um espetáculo destinado às multidões, nem um prodígio realizado diante dos curiosos. O acontecimento foi reservado a três homens que, em breve, precisariam enfrentar a mais profunda noite da fé. Pedro, Tiago e João seriam conduzidos ao alto de uma montanha para contemplar aquilo que nenhuma palavra humana seria capaz de descrever plenamente: a glória divina resplandecendo na humanidade de Jesus Cristo.
Desde os primeiros séculos do cristianismo, esse acontecimento tornou-se motivo de contemplação para a Igreja. Já no século V, comunidades cristãs do Oriente celebravam a Transfiguração do Senhor, reconhecendo naquele episódio uma das mais luminosas manifestações da identidade divina de Cristo. Com o passar do tempo, a solenidade espalhou-se por diversas regiões do mundo cristão, tornando-se uma das grandes festas da liturgia.
O cenário escolhido por Jesus foi um monte elevado. A tradição cristã identifica esse lugar como o monte Tabor, situado na região da Galileia, cuja silhueta isolada domina a vasta planície ao seu redor. Embora os Evangelhos não mencionem explicitamente seu nome, desde os primeiros séculos numerosos peregrinos e escritores cristãos reconheceram naquele monte o palco da manifestação gloriosa do Salvador. Ali foram erguidos, posteriormente, santuários destinados a recordar para sempre o mistério contemplado pelos três apóstolos.
Foi para esse lugar de silêncio e oração que Jesus conduziu Pedro, Tiago e João. Não havia multidões, nem discípulos numerosos. Apenas os três que, mais tarde, também estariam ao Seu lado na agonia do Getsêmani. A subida exigia esforço, mas o que os aguardava superava toda expectativa humana.
Enquanto Jesus rezava, Sua aparência começou a transformar-se diante deles. Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas relatam esse acontecimento com detalhes próprios, mas todos concordam na mesma verdade essencial: a glória divina tornou-se visível através da humanidade de Cristo. Seu rosto resplandeceu com uma luz que não pertencia a este mundo, e Suas vestes adquiriram um brilho tão intenso que, segundo o Evangelho de São Marcos, nenhum lavadeiro da terra poderia torná-las tão brancas.
Não se tratava de uma transformação da natureza de Jesus, pois Ele sempre foi verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O que aconteceu foi uma manifestação exterior da glória que permanecia velada sob a simplicidade de Sua condição humana. Durante alguns instantes, os discípulos contemplaram aquilo que eternamente pertence ao Filho de Deus.
Então surgiram duas figuras conhecidas por toda a história da salvação.
Moisés, o grande legislador de Israel, aquele que recebera a Lei no monte Sinai e conduzira o povo para fora da escravidão do Egito.
Elias, o profeta ardente, defensor da fidelidade ao Deus único, cuja vida anunciava a esperança messiânica aguardada por Israel.
Ambos conversavam com Jesus. O evangelista São Lucas acrescenta um detalhe de profundo significado: falavam sobre a "partida" que Cristo realizaria em Jerusalém, isto é, Sua Paixão, Morte, Ressurreição e glorificação. Todo o Antigo Testamento encontrava ali seu cumprimento. A Lei e os Profetas apontavam para Aquele que agora estava diante deles.
Pedro, tomado pelo encantamento daquele momento, rompeu o silêncio. Quis prolongar aquela experiência de eternidade e propôs construir três tendas: uma para Jesus, outra para Moisés e outra para Elias. O próprio Evangelho observa que ele não sabia exatamente o que dizia, pois todos estavam profundamente tomados pelo temor diante da manifestação da glória divina.
Foi então que uma nuvem luminosa envolveu o monte.
Na Sagrada Escritura, a nuvem sempre representa a presença misteriosa de Deus. Foi ela que acompanhou Israel durante o Êxodo, cobriu o monte Sinai e encheu o Templo de Jerusalém. Agora, novamente, a nuvem tornava-se sinal da presença do Senhor.
Do seu interior ouviu-se a voz do Pai:
"Este é o meu Filho muito amado; ouvi-O."
A mesma voz que se fizera ouvir no Batismo de Jesus, às margens do rio Jordão, agora confirmava solenemente diante dos apóstolos a identidade do Cristo. Não era apenas um mestre, um profeta ou um enviado de Deus. Era o Filho eterno do Pai, digno de toda confiança e obediência.
Logo depois, tudo voltou ao silêncio.
Moisés e Elias desapareceram.
A luz extraordinária cessou.
Os discípulos ergueram os olhos e viram apenas Jesus.
Ao descerem do monte, Cristo lhes ordenou que não contassem a ninguém o que haviam visto até que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos. Eles guardaram esse mistério no coração, incapazes ainda de compreender plenamente o significado da ressurreição anunciada por Jesus.
Somente depois da Páscoa entenderiam por que haviam sido testemunhas daquele acontecimento.
A Transfiguração não era um episódio isolado.
Era uma preparação.
Jesus conhecia a fraqueza daqueles homens. Sabia que, poucos meses depois, eles O veriam preso, humilhado, coroado de espinhos e pregado numa cruz. A lembrança da glória contemplada no monte sustentaria sua fé quando tudo parecesse perdido. Antes do escândalo da cruz, Cristo revelou-lhes o esplendor da Ressurreição.
Anos mais tarde, já próximo do fim de sua vida, São Pedro escreveria com emoção sobre aquele dia inesquecível. Na sua segunda carta, recordaria que não seguira fábulas engenhosamente inventadas, mas que fora testemunha ocular da majestade de Cristo, ouvindo pessoalmente a voz vinda da glória celeste. A experiência do monte Tabor permaneceu gravada para sempre na memória daquele apóstolo.
Ao longo dos séculos, os Padres da Igreja contemplaram nesse acontecimento uma antecipação da glória prometida aos fiéis. Santo Agostinho via na presença de Moisés e Elias a união da Lei e dos Profetas em torno de Cristo. São Leão Magno ensinava que a Transfiguração fortaleceu a fé dos apóstolos para que o sofrimento da Paixão não abalasse sua esperança. A liturgia cristã passou a enxergar naquele monte um anúncio da transformação final reservada a todos os que permanecerem unidos ao Senhor.
Embora celebrada desde o século V em diversas Igrejas do Oriente e posteriormente também no Ocidente, a festa adquiriu caráter universal em 1457. O papa Calisto III determinou sua celebração em toda a cristandade como ação de graças pela vitória das forças cristãs na defesa de Belgrado, ocorrida em 1456, quando o avanço do Império Otomano ameaçava profundamente a Europa cristã. O pontífice desejava que toda a Igreja reconhecesse a proteção divina naquele momento decisivo da história.
Séculos depois, São João Paulo II retomaria o sentido profundo dessa solenidade. Na celebração da Transfiguração, em 2002, recordou que o rosto luminoso de Cristo atravessa todas as sombras da existência humana, afirmando que o rosto do Senhor é a luz que vence a obscuridade da morte e constitui o penhor da glória preparada para aqueles que permanecem fiéis.
Esse continua sendo o coração da festa.
A Transfiguração não convida apenas a recordar um acontecimento extraordinário ocorrido no alto de uma montanha da Galileia. Ela dirige o olhar de cada cristão para Cristo glorioso, fortalecendo a esperança em meio às provações da vida. Assim como Pedro, Tiago e João precisaram contemplar a luz antes de enfrentar a escuridão da cruz, também cada discípulo é chamado a guardar no coração a certeza de que o sofrimento não possui a última palavra.
No alto do Tabor, Deus revelou aquilo que a fé jamais deve esquecer: por trás da humildade do Servo está a majestade do Filho eterno; por trás da cruz resplandece a vitória da Ressurreição; e além das sombras deste mundo permanece a luz que jamais se extinguirá, a mesma luz do Cristo glorificado, que continua conduzindo a Igreja rumo à plenitude da vida eterna.
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral