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Protomártires do Brasil

Protomártires do Brasil

Cunhaú e Uruaçu: a fé que permaneceu de pé

Em meados do século XVII, o Nordeste brasileiro atravessava um dos períodos mais turbulentos de sua história. A ocupação holandesa transformara a região em cenário de disputas políticas, militares e religiosas. No território da Capitania do Rio Grande, entre engenhos, pequenas comunidades e caminhos ainda incertos, viviam famílias católicas que procuravam conservar sua fé em meio à instabilidade.

Foi nesse ambiente que, em 1645, aconteceram os dois episódios que marcariam para sempre a história da Igreja no Brasil: os martírios de Cunhaú e Uruaçu.

Em Cunhaú, povoado que se desenvolvia ao redor de um engenho de cana-de-açúcar, a comunidade reunia-se para a celebração dominical na capela de Nossa Senhora das Candeias. À frente daquela comunidade estava o padre André de Soveral, sacerdote que havia dedicado parte de sua vida ao serviço missionário.

Nascido por volta de 1572, em São Vicente, André de Soveral ingressara ainda jovem na Companhia de Jesus. Depois de sua passagem pelos jesuítas, tornou-se sacerdote do clero diocesano e chegou a exercer seu ministério na região do Rio Grande. Em Cunhaú, encontrou uma comunidade que acompanhava pastoralmente e na qual celebraria sua última Missa.

Era domingo, 16 de julho de 1645. Na capela de Nossa Senhora das Candeias, cerca de setenta pessoas haviam se reunido para a Eucaristia. Enquanto a celebração acontecia, Jacó Rabe chegou ao local anunciando comunicações atribuídas às autoridades holandesas.

Durante a Missa, depois da consagração, a capela foi cercada. As portas foram fechadas e os fiéis, surpreendidos durante a celebração, foram atacados. Padre André de Soveral e dezenas de seus paroquianos foram mortos naquele mesmo lugar. Segundo a tradição preservada pela Igreja, o sacerdote exortou os fiéis à oração e permaneceu unido à sua comunidade até o fim.

O sangue derramado em Cunhaú espalhou o medo pela região. Muitos moradores procuraram refúgio no Forte dos Reis Magos, enquanto outros organizaram sua própria defesa. O episódio, porém, não encerraria a violência.

Meses depois, a perseguição alcançaria outro grupo de católicos.

Entre os moradores que haviam buscado proteção estava o padre Ambrósio Francisco Ferro, sacerdote que exercia o ministério como vigário de Natal. Natural dos Açores, havia se estabelecido no Brasil e desempenhava seu serviço pastoral na região desde o século XVII. Após os acontecimentos de Cunhaú, ele acabou sendo conduzido com outros moradores para a região de Uruaçu.

No dia 3 de outubro de 1645, às margens do rio Uruaçu, aconteceu o segundo grande martírio. Padre Ambrósio Francisco Ferro e um grupo de leigos foram entregues à morte. As fontes da Igreja registram que entre as vítimas havia homens, mulheres e crianças, e que o grupo reunia pessoas de diferentes origens.

Entre eles estava Mateus Moreira, leigo profundamente ligado à vida da comunidade cristã. Seu nome atravessaria os séculos por causa das palavras que pronunciou no instante extremo de sua vida.

Segundo a antiga crônica de Lopo Curado Garro, escrita poucas semanas depois dos acontecimentos, Mateus sofreu uma das formas mais cruéis de execução e, mesmo assim, suas últimas palavras foram uma profissão de fé: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento!”

Naquele momento, sua voz tornou-se uma espécie de última oração. Diante da violência, Mateus não respondeu com outra violência. Sua profissão de fé apontava para aquilo que ocupava o centro da vida daqueles cristãos: a presença de Cristo na Eucaristia.

A história desses mártires não terminou com suas mortes. Décadas e séculos depois, sua memória continuou viva na Igreja do Rio Grande do Norte. O testemunho de Cunhaú e Uruaçu permaneceu presente nas comunidades e, em 1991, durante sua visita a Natal, o Papa João Paulo II chamou-os de Protomártires do Brasil.

O processo de beatificação avançou no século XX. Em 5 de março de 2000, na Praça de São Pedro, o Papa João Paulo II beatificou os mártires do Rio Grande do Norte. Foram apresentados à Igreja como testemunhas da fé cristã até o derramamento do próprio sangue.

Anos depois, o reconhecimento definitivo chegou. Em 15 de outubro de 2017, também na Praça de São Pedro, o Papa Francisco canonizou Santo André de Soveral, Santo Ambrósio Francisco Ferro, São Mateus Moreira e seus 27 companheiros leigos, elevando-os à honra dos altares como santos da Igreja Católica. O próprio Vaticano registra oficialmente a canonização dos trinta mártires.

Entre os frutos dessa memória está também a devoção particular a São Mateus Moreira. Em 2005, a Santa Sé aprovou sua escolha como Padroeiro dos Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão Eucarística no Brasil, justamente por seu extraordinário testemunho de amor e fidelidade à Eucaristia.

Cunhaú e Uruaçu permanecem, assim, como lugares de memória e oração. Não são apenas nomes ligados a uma página dolorosa da história colonial brasileira. São também lugares onde a Igreja reconhece o testemunho de homens e mulheres que, em circunstâncias extremas, permaneceram fiéis àquilo em que acreditavam.

A história daqueles dias começou entre engenhos, guerras e conflitos de seu tempo. Mas terminou atravessando os séculos.

André de Soveral permaneceu junto de seu povo.
Ambrósio Francisco Ferro permaneceu fiel ao seu ministério.
Mateus Moreira permaneceu fiel à Eucaristia.
E seus companheiros permaneceram unidos na fé.

No silêncio daqueles lugares, a Igreja continua recordando seus nomes e repetindo a profissão que atravessou a morte de Mateus Moreira: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento!”
Protomártires do Brasil, rogai por nós!

Reflexão

Protomártires do Brasil
Dentro da conturbada invasão dos holandeses no nordeste do Brasil, encontram-se os dois martírios coletivos: o de Cunhaú e o de Uruaçu. Estes martírios aconteceram no ano de 1645, sendo que o Pe. André de Soveral e Domingos de Carvalho foram mártires em Cunhaú e o Pe. Ambrósio Francisco Ferro e Mateus Moreira em Uruaçu; dentre outros.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral