Entre os homens escolhidos por Cristo para mudar a história do mundo, poucos ocuparam um lugar tão próximo do Mestre quanto Tiago, filho de Zebedeu. Seu nome atravessou os séculos não apenas como o de um apóstolo fiel, mas como o de um testemunho vivo da coragem que nasce quando o coração humano se entrega inteiramente a Deus.
Tiago nasceu na Galileia, por volta dos anos que antecederam o nascimento de Jesus. Era filho de Zebedeu, um pescador de certa prosperidade, e de Salomé, mulher piedosa que mais tarde figuraria entre as discípulas que acompanharam o Senhor até os momentos decisivos de sua Paixão. Seu irmão era João, aquele que se tornaria o Evangelista e o discípulo amado.
Os dois trabalhavam nas águas do lago de Genesaré quando suas vidas foram transformadas para sempre.
O Evangelho narra que Jesus passou junto ao mar e os viu ocupados em seu ofício. Não lhes ofereceu riquezas, prestígio ou segurança. Fez apenas um convite simples e absoluto:
“Segue-me.”
Naquele instante, Tiago deixou as redes, o barco e o trabalho da família. Não sabia ainda que estava abandonando uma existência comum para tornar-se testemunha dos maiores acontecimentos da história da salvação.
Cristo conhecia profundamente o temperamento daqueles dois irmãos. Por isso lhes deu um apelido singular: Boanerges, isto é, “Filhos do Trovão” (Mc 3,17). O nome revelava o ardor, a energia e o entusiasmo que caracterizavam sua personalidade.
Esse temperamento aparece diversas vezes nos Evangelhos. Quando uma aldeia samaritana recusou acolher Jesus, Tiago e João perguntaram se deveriam pedir fogo do céu sobre os habitantes. O Mestre, porém, corrigiu-os, ensinando-lhes que o Reino de Deus não seria construído pela violência, mas pela misericórdia.
Ao longo dos anos, aquele ímpeto humano foi sendo transformado pela convivência com Cristo.
Tiago pertenceu ao grupo mais íntimo dos discípulos. Entre os Doze, alguns acontecimentos foram testemunhados apenas por Pedro, João e ele. Quando Jesus entrou na casa de Jairo para devolver a vida à sua filha, Tiago estava presente. Quando o Senhor subiu ao Monte Tabor e revelou sua glória na Transfiguração, Tiago contemplou o rosto resplandecente de Cristo. E quando chegou a hora da agonia no Getsêmani, ele também estava entre os poucos convidados a permanecer mais perto do Mestre.
Essas experiências moldaram sua alma.
Ele viu a autoridade de Cristo sobre a morte, contemplou antecipadamente sua glória divina e testemunhou sua profunda humanidade diante do sofrimento.
Os Evangelhos também registram um episódio revelador. Certa vez, sua mãe aproximou-se de Jesus pedindo que seus filhos ocupassem os lugares de honra no Reino. O Mestre respondeu perguntando se eles eram capazes de beber o cálice que Ele haveria de beber.
Tiago respondeu sem hesitar:
— Podemos.
Talvez naquele momento não compreendesse plenamente o significado daquelas palavras. Mas um dia as compreenderia até as últimas consequências.
Após a Ressurreição e a vinda do Espírito Santo em Pentecostes, os apóstolos partiram para anunciar o Evangelho. Desde os primeiros séculos surgiu uma sólida tradição segundo a qual Tiago teria evangelizado regiões da Hispânia, atual Espanha. Embora os detalhes dessa missão não sejam descritos nas Escrituras, essa tradição tornou-se profundamente enraizada na história cristã espanhola.
O que o Novo Testamento afirma com clareza é que Tiago retornou a Jerusalém e ali continuou anunciando Jesus Cristo com coragem.
A pregação apostólica crescia rapidamente. Homens e mulheres abandonavam antigos costumes para abraçar a fé cristã. Isso provocava a reação das autoridades religiosas e políticas.
Naqueles anos, governava a Judeia Herodes Agripa I, neto de Herodes, o Grande. Desejando agradar aos opositores da Igreja nascente, iniciou uma perseguição contra os discípulos de Cristo.
Foi nesse contexto que Tiago recebeu a graça do martírio.
O Livro dos Atos dos Apóstolos registra de forma breve, mas solene:
“Herodes mandou matar à espada Tiago, irmão de João” (At 12,2).
Com essa sentença simples, a Escritura conserva um dos acontecimentos mais importantes da história apostólica.
Tiago tornou-se o primeiro dos Doze a derramar o próprio sangue por Cristo.
Aquele que havia prometido beber o cálice do Senhor cumpriu sua palavra. O discípulo que contemplara a Transfiguração foi também um dos primeiros a participar plenamente da glória do Ressuscitado.
Seu martírio ocorreu por volta do ano 44, em Jerusalém.
A veneração ao apóstolo espalhou-se rapidamente entre os cristãos. Séculos depois, consolidou-se na Espanha a tradição segundo a qual suas relíquias teriam sido levadas para a Galícia. Segundo os relatos medievais, o local do sepulcro foi identificado após sinais luminosos observados numa região então chamada Iria Flávia.
Da expressão latina Campus Stellae — “Campo da Estrela” — teria surgido o nome Compostela.
No século IX, o rei Afonso II ordenou a construção de um santuário naquele local. A partir de então, Santiago de Compostela tornou-se um dos maiores centros de peregrinação da cristandade.
Durante a Idade Média, multidões atravessavam montanhas, florestas, planícies e aldeias para venerar o apóstolo. Reis, monges, cavaleiros, comerciantes e camponeses percorriam as estradas europeias movidos pela fé e pela penitência.
Nascia assim o célebre Caminho de Santiago.
Ao longo dos séculos, essa rota tornou-se não apenas uma peregrinação geográfica, mas uma imagem da própria caminhada espiritual do cristão. Cada etapa recordava que a vida é um caminho rumo ao encontro definitivo com Deus.
A magnífica Catedral de Santiago de Compostela, construída sobre a tradição do túmulo do apóstolo, tornou-se um dos monumentos religiosos mais importantes do mundo cristão. Milhões de peregrinos já passaram por suas portas.
Em 1982 e novamente em 1989, São João Paulo II visitou Compostela. Na Jornada Mundial da Juventude daquele ano, dirigiu aos jovens da Europa um apelo para que reencontrassem suas raízes cristãs, justamente diante do túmulo daquele apóstolo que havia deixado tudo para seguir Cristo.
A figura de São Tiago permanece atual porque sua vida é a história de uma transformação profunda. O pescador impulsivo tornou-se discípulo fiel. O homem de temperamento ardente aprendeu a mansidão do Evangelho. O seguidor que buscava lugares de honra compreendeu que a verdadeira grandeza está em servir. E aquele que prometeu beber o cálice do Senhor cumpriu sua promessa oferecendo a própria vida.
Por isso a Igreja o venera não apenas como Apóstolo, mas como modelo de coragem missionária, fidelidade e entrega total ao Evangelho.
Nas estradas do mundo e nos caminhos da alma, São Tiago continua lembrando aos cristãos de todos os tempos que seguir Cristo exige deixar as próprias seguranças para trás, mas conduz à única aventura capaz de preencher plenamente o coração humano: caminhar ao lado do Senhor até a eternidade.
São Tiago Maior, rogai por nós!
No século VIII, a Espanha lutava contra a invasão dos bárbaros muçulmanos. Diz a história que pela intercessão de São Tiago os muçulmanos foram derrotados. No local da vitória espanhola o rei Afonso II mandou construir uma igreja e um mosteiro, dedicados à Santiago, com isto a cidade de Iria passou a se chamar Santiago de Compostela, ou seja, do campo da estrela. Desde aquele tempo até hoje, o Santuário de Santiago de Compostela, é um dos mais procurados, pelos peregrinos do mundo inteiro, que fazem o trajeto à pé.
Ó Deus, que a vossa Igreja exulte sempre no constante louvor do Apóstolo São Tiago, Maior, para que, sustentada por sua doutrina e intercessão, seja fiel a seus ensinamentos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional