Há homens que entram para a história por suas conquistas militares, outros por seu talento intelectual ou por sua influência política. São Camilo de Léllis, porém, tornou-se imortal por algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais difícil: amar os que sofrem quando todos os demais se afastam deles.
Sua vida foi uma longa caminhada de conversão. Antes de se tornar o grande patrono dos enfermos e dos profissionais da saúde, conheceu a dor da doença, a humilhação da pobreza, a escravidão dos vícios e as derrotas que acompanham aqueles que se afastam de Deus. Talvez por isso tenha aprendido tão profundamente a linguagem da misericórdia.
Camilo nasceu em 25 de maio de 1550, na pequena localidade de Bucchianico, na região dos Abruzos, na Itália. Seu pai, Giovanni de Léllis, era oficial militar a serviço da Espanha, e sua mãe, Camilla Compelli, era uma mulher de profunda fé cristã.
A tradição relata que sua mãe, já em idade avançada para a época, recebeu o filho como um dom especial da Providência. Ela procurou transmitir-lhe os valores da fé desde os primeiros anos, mas não viveria o suficiente para acompanhar o amadurecimento espiritual daquele que um dia seria santo.
Camilo cresceu robusto, alto e forte. Ao atingir a idade adulta, ultrapassava facilmente os dois metros de altura, característica que o tornaria uma figura impressionante por onde passasse.
Seguindo o exemplo paterno, ingressou na carreira militar.
A Europa do século XVI vivia constantes conflitos, especialmente contra o avanço do Império Otomano no Mediterrâneo. Camilo serviu em campanhas militares e experimentou a dura realidade dos campos de batalha.
Foi nesse período que surgiu uma enfermidade que o acompanharia pelo resto da vida.
Uma ferida persistente em uma das pernas abriu-se e jamais cicatrizou completamente. A lesão provocava dores intensas e recorrentes, obrigando-o a procurar tratamento em hospitais diversas vezes.
Entretanto, a enfermidade física não era sua única luta.
Ainda jovem, desenvolveu uma forte dependência do jogo de azar.
O vício consumia seus recursos, perturbava sua paz interior e o levava frequentemente ao desespero. A cada derrota prometia mudar de vida; a cada nova oportunidade retornava às mesas de jogo.
Sua existência parecia caminhar sem direção.
Quando seu pai morreu, Camilo ficou ainda mais vulnerável. Sem estabilidade, sem recursos e dominado pelos maus hábitos, viu-se mergulhado em uma sucessão de fracassos.
Chegou o dia em que perdeu absolutamente tudo.
As crônicas registram que, após uma série de derrotas no jogo, ficou sem dinheiro, sem bens e praticamente sem nada para sustentar-se. O homem que havia servido como soldado agora encontrava-se reduzido à condição de indigente.
Foi então que a Providência começou a transformar sua história.
Sem alternativas, passou a trabalhar na construção de um convento dos Frades Menores Capuchinhos, próximo a Manfredônia.
Ali aconteceu o momento decisivo de sua conversão.
Em 2 de fevereiro de 1575, enquanto refletia sobre as pregações que ouvira dos religiosos, foi profundamente tocado pela graça de Deus. Compreendeu a própria miséria espiritual e reconheceu o quanto havia desperdiçado sua vida.
Mais tarde recordaria esse acontecimento como um verdadeiro renascimento interior.
A partir daquele dia, iniciou uma mudança radical.
Desejando entregar-se totalmente a Deus, pediu para ingressar na Ordem dos Capuchinhos. Foi aceito como noviço, mas a antiga ferida na perna continuava a causar graves problemas. As constantes recaídas obrigavam-no a deixar o convento repetidas vezes para buscar tratamento médico.
Por fim, tornou-se evidente que sua condição física o impediria de prosseguir naquele caminho.
Camilo precisou abandonar o projeto de ser capuchinho.
Contudo, Deus o conduzia para uma missão ainda maior.
Retornou ao Hospital de São Tiago dos Incuráveis, em Roma, onde anteriormente havia sido tratado como paciente. Inicialmente exerceu funções simples, mas sua dedicação chamou atenção dos responsáveis pela instituição.
Com o passar do tempo, tornou-se supervisor do hospital.
Foi nesse ambiente que sua vocação definitiva começou a tomar forma.
Os hospitais da época apresentavam condições extremamente precárias. Muitos doentes eram tratados de maneira impessoal. A higiene era insuficiente. Faltavam profissionais preparados e não eram raros os casos de abandono.
Camilo observava tudo isso com sofrimento.
Via nos leitos não apenas enfermos, mas o próprio Cristo padecendo.
Costumava repetir aos seus companheiros:
“Coloquem mais coração nessas mãos.”
Essa frase se tornaria uma síntese perfeita de sua espiritualidade.
Para ele, cuidar de um doente não era apenas prestar assistência material. Era um ato de amor a Jesus.
Movido por essa convicção, reuniu alguns homens dispostos a servir os enfermos de forma inteiramente gratuita e com espírito evangélico.
Nascia assim a semente da futura Ordem dos Ministros dos Enfermos.
Ao mesmo tempo, aconselhado por seu diretor espiritual, especialmente por São Filipe Néri, compreendeu que Deus o chamava também ao sacerdócio.
Estudou com perseverança, superando dificuldades acadêmicas e limitações pessoais.
Foi ordenado sacerdote em 1584.
A partir de então, seu trabalho adquiriu ainda maior alcance.
Em 1586, o Papa Sisto V aprovou oficialmente sua comunidade religiosa. Poucos anos depois, o Papa Gregório XIV elevou-a à condição de ordem religiosa.
Os religiosos passaram a ser conhecidos como camilianos.
Seu hábito trazia uma grande cruz vermelha sobre o peito, símbolo que séculos mais tarde inspiraria iniciativas humanitárias semelhantes, embora a Cruz Vermelha Internacional tenha origem própria no século XIX.
A missão dos camilianos era revolucionária para seu tempo.
Eles não apenas cuidavam dos enfermos nos hospitais, mas também visitavam doentes abandonados em suas casas, socorriam vítimas de epidemias, assistiam prisioneiros enfermos e acompanhavam soldados feridos nos campos de batalha.
Pela primeira vez na história da Igreja, uma ordem religiosa assumia de forma sistemática e organizada o cuidado integral dos doentes.
Camilo exigia dos seus religiosos uma dedicação total.
Desejava que cada enfermo fosse tratado como um membro da própria família.
Durante epidemias de peste, quando muitos fugiam das cidades por medo do contágio, ele e seus companheiros permaneciam ao lado dos moribundos.
Diversos religiosos perderam a vida nesse serviço heroico.
Camilo continuou firme.
Sua própria saúde deteriorava-se cada vez mais.
Além da ferida crônica na perna, sofria com problemas renais, dificuldades digestivas e outras enfermidades que lhe causavam dores constantes.
Mas jamais permitiu que o sofrimento diminuísse sua dedicação aos necessitados.
Mesmo quando já não possuía forças para trabalhar fisicamente, perguntava pelos doentes, interessava-se pelos hospitais e orientava seus religiosos.
Sua preocupação pelos enfermos permaneceu até os últimos dias.
Em 1607, compreendendo que suas forças estavam chegando ao fim, renunciou ao governo da ordem.
Desejava preparar-se em paz para o encontro definitivo com Deus.
Nos anos finais viveu entre dores intensas, oferecendo seus sofrimentos em união com Cristo.
Finalmente, em 14 de julho de 1614, cercado por seus irmãos religiosos, entregou sua alma ao Senhor.
Tinha sessenta e quatro anos.
A obra que deixava para trás continuaria crescendo muito além do que ele poderia imaginar.
A Igreja reconheceu oficialmente sua santidade em 1746, quando foi canonizado pelo Papa Bento XIV.
Mais tarde, o Papa Leão XIII o declarou padroeiro dos enfermos juntamente com São João de Deus. Em seguida, o Papa Pio XI ampliou esse patronato aos hospitais, profissionais da saúde e associações dedicadas ao cuidado dos doentes.
Hoje, passados mais de quatro séculos de sua morte, São Camilo de Léllis continua sendo uma referência luminosa para médicos, enfermeiros, cuidadores, capelães hospitalares e todos aqueles que se dedicam ao serviço da vida humana.
Sua herança não está apenas nas instituições que fundou.
Está na visão profundamente cristã que transformou a maneira de cuidar dos enfermos.
Num mundo em que a doença frequentemente gera medo, isolamento e abandono, Camilo ensinou que cada leito hospitalar pode tornar-se um altar de caridade.
E que cada pessoa ferida, sofrendo ou agonizante, carrega em si a imagem daquele Cristo que um dia declarou:
“Estive doente e me visitastes.”
Foi essa verdade que guiou toda a sua vida.
E foi por ela que São Camilo se tornou um dos maiores apóstolos da misericórdia na história da Igreja.
São Camilo de Léllis, rogai por nós!
A bula da canonização enaltece a virtude da caridade em são Camilo. A caridade chegou-lhe ao extremo por ocasião da peste em Roma. Embora doente e sofrendo dores horríveis no pé, ia de casa em casa, procurando, socorrendo e consolando os pobres doentes. Numerosos são os casos, em que foi visto levando às costas os doentes aos hospital, onde os tratava com o maior carinho.
Ó São Camilo, que imitando Jesus Cristo, destes a vida pelos vossos semelhantes, dedicando-vos aos enfermos, socorrei-me na minha doença, aliviai minhas dores, fortalecei meu ânimo, ajudai-me a aceitar os sofrimentos, para purificar-me dos meus pecados. Por nosso Senhor Jesus Cristo.
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional