Santo do Dia
Diocese de Petrópolis - "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho"
São Pedro Claver

São Pedro Claver

O homem que se fez escravo dos escravos

“Ego Petrus Claver, Aethiopum servus”“Eu, Pedro Claver, servo dos africanos”.

Não era apenas uma frase piedosa.
Era a expressão de uma escolha que haveria de definir toda a sua existência.

No século XVII, quando milhares de homens, mulheres e crianças eram arrancados da África e transportados para a América em condições desumanas, um sacerdote espanhol decidiu fazer da própria vida uma resposta àquela tragédia. Não podia desfazer sozinho o sistema que transformava pessoas em mercadoria, mas podia aproximar-se daqueles que chegavam feridos, enfermos, famintos e aterrorizados. Podia recebê-los. Podia cuidar deles. Podia falar-lhes de Deus. Podia defender sua dignidade.

Seu nome era Pedro Claver.
Ele nasceu em 26 de junho de 1580, em Verdú, na Catalunha, Espanha. Cresceu em uma família católica, em um ambiente marcado pela fé, e desde cedo foi encaminhado aos estudos. Ainda jovem, recebeu a primeira tonsura e iniciou o caminho que o conduziria ao sacerdócio e à vida religiosa.

Aos vinte e poucos anos, porém, sua vida tomou uma direção decisiva.

Em 1602, Pedro entrou na Companhia de Jesus, em Barcelona. Durante sua formação, estudou filosofia no Colégio de Montesión, em Maiorca. Ali encontrou um homem que teria importância singular em sua vocação: o irmão jesuíta Afonso Rodrigues, conhecido por sua profunda vida espiritual.

Rodrigues percebeu no jovem Pedro um desejo intenso de servir a Deus e o incentivou a considerar a missão no Novo Mundo. A orientação daquele religioso ajudou a abrir diante de Claver um horizonte que ele ainda não conhecia: partir para terras distantes e dedicar-se à evangelização.

Pedro aceitou.

Em 1610, chegou à Colômbia. Depois de continuar sua formação teológica em Bogotá, foi enviado para Cartagena, cidade portuária do Caribe onde terminaria seus dias.

Ali, Pedro Claver encontrou uma realidade que mudaria para sempre a sua compreensão do sacerdócio.

Cartagena era um dos principais portos espanhóis ligados ao comércio de pessoas escravizadas no Novo Mundo. Navios provenientes da África chegavam carregados de homens, mulheres e crianças que haviam sido violentamente retirados de suas terras e submetidos a uma travessia terrível pelo oceano.

Para os comerciantes, eram mercadorias.
Para Pedro Claver, eram pessoas.

E essa diferença determinaria cada passo de seu apostolado.

Em 1616, Pedro foi ordenado sacerdote em Cartagena. A partir de então, sua missão entre os escravizados ganhou ainda maior intensidade.

Ele não esperava que aqueles homens e mulheres fossem até ele.
Pedro ia ao encontro deles.

Quando um navio chegava ao porto, ele procurava embarcar o mais depressa possível. Descia aos porões onde os recém-chegados permaneciam confinados e encontrava pessoas debilitadas pela viagem, muitas vezes feridas, doentes, famintas e aterrorizadas.

Não chegava sozinho.

Em diversas ocasiões, era acompanhado por pessoas que conheciam línguas africanas e podiam servir como intérpretes. Assim, conseguia aproximar-se daqueles que não compreendiam sua língua e, antes mesmo das palavras, oferecia-lhes aquilo que naquele momento talvez fosse mais urgente: presença, alimento, remédio, cuidado e compaixão.

Os jesuítas recordam que Claver levava comida que havia conseguido por meio de pedidos e esmolas. Nos navios, tratava feridas, aplicava medicamentos e curativos e procurava consolar aqueles que encontrava.

Depois vinha a catequese.

Pedro ensinava o cristianismo àqueles que desejavam recebê-lo e os preparava para o batismo. Como muitos permaneciam pouco tempo em Cartagena antes de serem vendidos e conduzidos para outros lugares, sua ação precisava ser rápida, mas isso não significava, para ele, que aquelas pessoas fossem tratadas de maneira superficial.

Cada pessoa importava.
Cada rosto importava.
Cada ferida importava.
Cada alma importava.

O trabalho de Claver não terminava quando os navios deixavam o porto. Ele continuava visitando os escravizados, acompanhando-os espiritualmente e procurando ajudá-los também nas situações concretas de sofrimento.

Visitava hospitais. Atendia enfermos.

Entrava em lugares onde outros preferiam não entrar.

Também cuidava de pessoas atingidas pela lepra e prestava assistência a prisioneiros de guerra. Sua caridade não se restringia, portanto, aos que chegavam da África: alcançava diferentes grupos de pessoas marginalizadas e abandonadas.

Essa maneira de agir não era compreendida por todos.

A sociedade de seu tempo estava profundamente marcada pela escravidão. Havia interesses econômicos poderosos sustentando aquele comércio, e a dignidade dos africanos escravizados era frequentemente negada na prática.

Pedro Claver, porém, não aceitou adaptar o Evangelho aos interesses daquela sociedade.

Sua presença junto aos escravizados era, por si mesma, uma denúncia silenciosa.
Ele não os via como objetos. Via como pessoas.
E, na perspectiva de sua fé, via neles filhos de Deus.

Décadas mais tarde, a própria Santa Sé recordaria essa dimensão de seu testemunho. Ao escrever sobre a abolição da escravidão, o Papa Leão XIII apresentou Pedro Claver como exemplo extraordinário de dedicação aos escravizados e destacou que ele havia consagrado cerca de quarenta anos de sua vida a esse serviço, assumindo o título de servo daqueles a quem havia decidido dedicar-se.

Pedro não se limitou a falar sobre caridade. Ele a praticou até as últimas consequências.
Sua vida tornou-se uma sucessão de encontros com pessoas feridas pela violência de seu tempo.

Eram encontros repetidos, muitas vezes anônimos, que dificilmente poderiam ser registrados um por um. Mas a dimensão de seu apostolado pode ser percebida pelo número tradicionalmente associado à sua missão: os jesuítas e documentos da Igreja atribuem a Claver cerca de 300 mil batismos durante seus anos de trabalho em Cartagena.

Por trás desse número, entretanto, não devemos imaginar apenas uma estatística.

Havia rostos. Havia nomes. Havia histórias interrompidas pela violência. Havia pessoas que chegavam à América sem saber o que aconteceria com suas vidas.
E havia um sacerdote que decidiu encontrá-las justamente onde estavam.

Foi nesse contexto que Pedro Claver assumiu uma das mais fortes expressões de sua vocação.
Em sua profissão religiosa, declarou-se “escravo dos negros para sempre”.

A frase era deliberadamente radical.

Em uma sociedade na qual seres humanos eram transformados em propriedade, Pedro utilizou a própria linguagem da escravidão para invertê-la completamente: não queria possuir ninguém; queria colocar-se a serviço daqueles que eram tratados como propriedade.

Seu senhorio não seria o dos comerciantes.
Seu compromisso seria com Cristo e com aqueles que sofriam.

Por isso, sua vida não pode ser reduzida simplesmente à imagem de um sacerdote que batizava os recém-chegados. Pedro Claver foi também um homem que tocava feridas, alimentava famintos, consolava doentes, visitava abandonados e permanecia próximo daqueles que a sociedade colocava à margem.

Sua ação possuía uma dimensão espiritual inseparável da caridade concreta.
Para ele, falar de Cristo não significava ignorar a dor do corpo.
E cuidar do corpo não significava esquecer a alma.

As duas coisas caminhavam juntas.

A força desse testemunho seria reconhecida séculos depois pelo Papa São João Paulo II, que esteve em Cartagena em 1986 e rezou diante do túmulo do santo. Naquela ocasião, recordou como Claver esperava os navios que chegavam da África, sendo o primeiro a subir a bordo para atender os enfermos e necessitados. Recordou também sua catequese, os batismos, o ministério da reconciliação e a profunda vida de oração que sustentava sua atividade apostólica.

Mas o próprio corpo de Pedro acabaria pagando o preço daquela caridade.

Em 1650, uma epidemia de peste atingiu Cartagena. Claver cuidou dos enfermos e acabou sendo atingido pela doença. Sobreviveu, mas sua saúde ficou profundamente comprometida.

Os últimos anos foram marcados pelo enfraquecimento físico.

Aquele homem que durante décadas havia caminhado pelas ruas de Cartagena, descido aos porões dos navios, entrado nos hospitais e procurado os esquecidos já não possuía a mesma força.

Mas sua obra estava consumada.

Pedro Claver morreu em 9 de setembro de 1654, em Cartagena, aos 74 anos.

Havia passado mais de quarenta anos de sua vida religiosa a serviço dos outros e quase quatro décadas de seu ministério sacerdotal diretamente ligado à missão junto aos escravizados que chegavam ao porto.

Seu corpo permaneceu em Cartagena, cidade onde havia vivido e servido. Séculos depois, seu túmulo continuaria sendo lugar de peregrinação e oração.

A Igreja reconheceu oficialmente aquilo que a memória do povo já havia preservado.

Pedro Claver foi canonizado pelo Papa Leão XIII em 15 de janeiro de 1888. No mesmo contexto, Leão XIII tornou sua vida um exemplo para aqueles que trabalhavam pela dignidade e pela liberdade dos escravizados.

Mais tarde, Pio X o declarou patrono especial das missões entre os povos negros.

Seu testemunho, contudo, não ficou preso ao século XVII.

Quando São João Paulo II esteve em Cartagena, em 1986, percebeu que a mensagem de Pedro Claver continuava atual. O Papa relacionou a escravidão de seu tempo com outras formas de exploração humana, mencionando particularmente o tráfico de drogas e a dependência que destrói a liberdade, sobretudo entre os jovens. Para João Paulo II, a memória de Claver deveria conduzir os cristãos a combater as novas formas de escravidão que aprisionam o ser humano.

E talvez seja justamente aí que a vida de Pedro Claver revele toda a sua força.

Ele viveu em uma época determinada, diante de uma injustiça concreta e terrível. Não podemos transportar mecanicamente todas as circunstâncias daquele século para o presente. Mas podemos reconhecer a pergunta que sua vida continua fazendo:

O que fazemos quando encontramos alguém cuja dignidade foi negada?

Pedro respondeu com a própria vida.

Ele não passou indiferente diante dos navios.
Não esperou que os feridos procurassem por ele.
Não permaneceu distante diante dos porões.
Não transformou a dor dos outros em assunto alheio.

Desceu até onde estavam os abandonados.
E ali serviu.

Por isso, quando escreveu que seria “escravo dos negros para sempre”, Pedro Claver não estava exaltando a escravidão que destruía vidas.

Estava proclamando o contrário.
Estava dizendo que sua liberdade seria colocada a serviço daqueles a quem o mundo havia privado da liberdade.

O sacerdote que chegou da Espanha tornou-se, para sempre, filho daquela terra colombiana.
O homem que poderia ter escolhido uma missão mais confortável escolheu os porões dos navios.
O religioso que poderia ter permanecido entre seus irmãos jesuítas procurou os que estavam esquecidos nas margens.
E aquele que desejava servir a Cristo encontrou Cristo justamente entre os que sofriam.

Sua vida terminou em 1654.
Mas seu testemunho não.

Em Cartagena, seu nome permaneceu unido à memória daqueles que ele serviu. Na Igreja, tornou-se o Apóstolo dos escravizados. E na história cristã, permanece como um testemunho de que a caridade verdadeira não se contenta em contemplar o sofrimento de longe.

Ela se aproxima.
Ela toca.
Ela serve.
Ela permanece.
São Pedro Claver, servo dos escravizados e testemunha da dignidade humana, rogai por nós!

Reflexão

São Pedro Claver falava com os negros sofridos não com palavras, mas com ações concretas de caridade. Sempre disponível para o trabalho duro, Pedro Claver foi um verdadeiro Jesus Cristo para seus irmãos sofredores, a ponto de entregar-lhe a própria vida. Busquemos viver uma vida de fé marcada pelo serviço aos mais abandonados e assim realizar em nós a vontade de Deus.

Oração

Ó Pai, pela vossa misericórdia, São Pedro Claver anunciou as insondáveis riquezas de Cristo. Concedei-nos, por sua intercessão, crescer no vosso conhecimento e viver na vossa presença segundo o Evangelho, frutificando em boas obras. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional