Santo do Dia
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Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus

Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus

No coração do século XIX, quando milhares de famílias europeias deixavam suas terras em busca de esperança além-mar, uma pequena menina atravessou o oceano sem imaginar que um dia seria conhecida em todo o mundo como a primeira santa canonizada do Brasil. Sua história não começou entre grandes feitos ou acontecimentos extraordinários. Começou na simplicidade de uma família pobre, na fé cultivada dentro de casa e na disposição silenciosa de servir.

Essa menina chamava-se Amábile Lúcia Visintainer.

Ela nasceu em 16 de dezembro de 1865, em Vigolo Vattaro, então pertencente ao antigo Tirol austríaco, região hoje integrada à província de Trento, no norte da Itália. Era filha de Napoleone Visintainer e Anna Pianezzer, agricultores simples que viviam do próprio trabalho e procuravam educar os filhos segundo os valores cristãos.

A Europa daquela época atravessava profundas transformações econômicas e sociais. Muitas famílias camponesas enfrentavam dificuldades crescentes, e a emigração surgia como uma possibilidade de sobrevivência e recomeço.

Foi nesse contexto que os Visintainer tomaram uma decisão corajosa.

Em 1875, quando Amábile tinha apenas nove anos, a família embarcou rumo ao Brasil. A longa viagem significava deixar para trás a terra natal, os parentes, a cultura conhecida e toda a segurança construída ao longo das gerações.

Após cruzarem o Atlântico, estabeleceram-se em Nova Trento, no estado de Santa Catarina, uma das colônias formadas por imigrantes italianos no sul do país.

A nova vida não foi fácil.

As famílias colonizadoras encontravam matas densas, infraestrutura precária e enormes desafios para cultivar a terra. O trabalho exigia esforço constante. Cada conquista era fruto de sacrifícios diários.

Entretanto, naquele ambiente simples floresceu a vocação que marcaria a vida de Amábile.

Desde muito jovem, demonstrava profunda inclinação para a oração. Participava ativamente da vida paroquial e buscava colocar a fé em prática através de gestos concretos de caridade.

Foi em Nova Trento que conheceu Virgínia Rosa Nicolli, jovem que compartilhava os mesmos ideais espirituais. Entre as duas nasceu uma amizade marcada pela fé e pelo desejo de servir a Deus.

Rezavam juntas, frequentavam a igreja e participavam da catequese. Receberam a Primeira Comunhão praticamente na mesma época, fortalecendo ainda mais os laços espirituais que as uniam.

Enquanto crescia, Amábile tornava-se conhecida pela disponibilidade em ajudar.

Ensinava catecismo às crianças, visitava enfermos, auxiliava idosos abandonados e colaborava nos trabalhos da comunidade. Nada parecia pequeno demais para seu coração.

Aos poucos, compreendeu que Deus a chamava para uma entrega mais profunda.

A oportunidade surgiu quando uma mulher gravemente enferma, acometida por câncer e sem familiares que pudessem assisti-la, necessitou de cuidados permanentes.

Poucos estavam dispostos a assumir tal responsabilidade.

Amábile e Virgínia não hesitaram.

Com autorização do pai e apoio da comunidade, passaram a dedicar-se integralmente ao atendimento daquela doente. Para isso utilizaram uma pequena casa construída em terreno cedido pelo benfeitor Manuel Correia de Faria, conhecido como Barão de Indaial.

A humilde construção tornaria-se o berço de uma grande obra.

Ali não havia riquezas, recursos abundantes nem estruturas organizadas. Havia apenas duas jovens dispostas a viver o Evangelho até as últimas consequências.

Aquela pequena casa transformou-se em local de oração, acolhimento e serviço.

O dia 12 de julho de 1890 ficou registrado como a data de fundação da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, a primeira congregação religiosa feminina nascida em solo brasileiro.

Naquele mesmo ano, Amábile, Virgínia e outra companheira deram os primeiros passos formais na vida religiosa.

Foi então que Amábile recebeu um novo nome.

Passou a chamar-se Irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus.

O título não foi escolhido por acaso.

Expressava sua profunda devoção ao Cristo sofredor e sua disposição de unir os próprios sofrimentos aos do Senhor em favor dos irmãos.

Logo foi escolhida para exercer a função de superiora da nascente congregação.

Os primeiros anos foram marcados por inúmeras dificuldades. Faltavam recursos, estruturas e segurança financeira. Para sustentar a obra, as religiosas realizavam diversos trabalhos, entre eles uma pequena produção ligada à indústria da seda, bastante comum entre famílias de origem italiana.

Mas as dificuldades jamais impediram o crescimento da missão.

A caridade atraía novas vocações.

A simplicidade das irmãs tocava os corações.

Pouco a pouco a congregação expandia sua presença e ampliava seus serviços aos mais necessitados.

Em 1903, Madre Paulina recebeu um novo chamado.

Foi enviada para São Paulo, então uma cidade em rápido crescimento, impulsionada pela imigração e pela expansão econômica.

Ali encontrou uma realidade social marcada por profundas desigualdades.

Entre os grupos mais vulneráveis estavam muitos ex-escravizados e seus descendentes, frequentemente marginalizados após a abolição da escravidão ocorrida apenas quinze anos antes.

Sensível a essa situação, fundou no bairro do Ipiranga a Obra Sagrada Família.

O projeto destinava-se ao acolhimento de mulheres pobres, crianças e famílias em situação de vulnerabilidade, especialmente pessoas negras que enfrentavam exclusão social.

Mais uma vez, Madre Paulina escolheu estar ao lado daqueles que a sociedade frequentemente esquecia.

Sua liderança, porém, não esteve livre de sofrimentos.

Em determinado momento da história da congregação, enfrentou incompreensões e foi afastada do governo geral da própria obra que havia fundado. Aceitou essa situação com humildade e espírito de obediência, sem revolta nem ressentimento.

Continuou servindo silenciosamente.

Sua grandeza manifestava-se justamente na capacidade de permanecer fiel quando as homenagens desapareciam.

Os anos avançaram.

O trabalho intenso, os sacrifícios constantes e a saúde fragilizada começaram a cobrar seu preço.

Na década de 1930 surgiram os sintomas de uma enfermidade que marcaria seus últimos anos: a diabetes.

A doença evoluiu de forma severa.

Com o tempo, surgiram complicações graves que exigiram a amputação do braço direito. Posteriormente, perdeu também a visão.

Para muitas pessoas, tais sofrimentos poderiam representar o fim da missão.

Para Madre Paulina, tornaram-se uma nova forma de entrega.

Privada da autonomia que sempre possuíra, continuou oferecendo suas dores a Deus, conservando a serenidade e a confiança que haviam guiado toda a sua vida.

Quem a visitava nos últimos anos encontrava uma mulher fisicamente debilitada, mas espiritualmente luminosa.

Sua presença continuava inspirando religiosas, sacerdotes e leigos.

Finalmente, em 9 de julho de 1942, concluiu sua peregrinação terrestre.

Morreu em São Paulo com fama de santidade, deixando como herança uma congregação em expansão e um testemunho extraordinário de amor ao próximo.

Após sua morte, a devoção popular continuou crescendo.

Muitas pessoas passaram a atribuir graças à sua intercessão. O processo de reconhecimento oficial de suas virtudes avançou ao longo das décadas seguintes.

Em 18 de outubro de 1991, durante sua segunda visita apostólica ao Brasil, o Papa São João Paulo II presidiu em Florianópolis a cerimônia de beatificação de Madre Paulina.

Foi um momento histórico para a Igreja no país.

Milhares de fiéis celebraram o reconhecimento daquela mulher que havia dedicado a vida aos pobres, aos doentes e aos abandonados.

Poucos anos depois, novos estudos e o reconhecimento de um milagre abriram caminho para a canonização.

Em 19 de maio de 2002, na Praça de São Pedro, em Roma, João Paulo II proclamou oficialmente Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus.

Pela primeira vez, uma santa que viveu sua missão em terras brasileiras era elevada às honras dos altares da Igreja universal.

Hoje, sua memória permanece viva em inúmeras comunidades, escolas, hospitais e obras sociais espalhadas pelo Brasil e por diversos países.

Mas talvez seu maior legado não esteja nas instituições que fundou.

Está no exemplo.

Santa Paulina ensinou que a santidade não depende de circunstâncias extraordinárias. Ela nasce quando alguém transforma o sofrimento em oferta, a pobreza em generosidade e o amor a Deus em serviço concreto aos irmãos.

A menina imigrante que desembarcou em Santa Catarina sem riquezas nem prestígio tornou-se uma das maiores referências espirituais da história do Brasil.

E sua vida continua proclamando, através dos séculos, que a verdadeira grandeza não consiste em ser servido, mas em servir com amor, até o fim.
Santa Paulina, rogai por nós!

Reflexão

Madre Paulina é para nós um exemplo de cristã que assumiu plenamente seu dever de estado. Foi fiel a Deus durante toda a sua vida e aceitou tudo, os ventos favoráveis e aqueles ventos contrários, testemunhando sempre o seu amor pela Igreja e pela sua querida Congregação. Viveu uma vida de autêntica religiosa, até mesmo quando provada com humilhações e doenças. Os ventos contrários a levavam sempre mais adiante. Soube compreender a vontade de Deus até mesmo nos menores acontecimentos do dia-a-dia. Madre Paulina, rogai por nós!

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão: A12 Santuário Nacional