Santo do Dia
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Natividade de Nossa Senhora

Natividade de Nossa Senhora

Celebramos o nascimento da Mãe de Jesus

Há festas que recordam acontecimentos decisivos. E há outras que parecem anunciar, ainda antes que o acontecimento aconteça, que algo maior está para começar.

A Igreja celebra em 8 de setembro a Natividade da Santíssima Virgem Maria, o nascimento daquela que, na fé cristã, haveria de tornar-se a Mãe de Jesus Cristo. É uma celebração marcada pela alegria porque, ao recordar o nascimento de Maria, a liturgia contempla também o início daquele caminho que conduziria à Encarnação do Filho de Deus.

São João Paulo II expressou esse sentido em 1980, ao afirmar que a festa da Natividade de Maria é um convite à alegria, justamente porque, com seu nascimento, Deus oferecia ao mundo um sinal concreto de que a salvação estava próxima.

O Evangelho, entretanto, guarda silêncio sobre o nascimento de Maria. Mateus e Lucas apresentam sua missão na história da salvação, sobretudo em relação ao nascimento de Jesus, mas não narram quando, onde ou em que circunstâncias Maria veio ao mundo. Por isso, quando se procura reconstruir os primeiros anos de sua vida, é necessário distinguir aquilo que pertence às Escrituras daquilo que chegou até nós por meio da tradição cristã e de antigos escritos não canônicos.

Entre esses escritos está o chamado Protoevangelho de Tiago, provavelmente composto no século II. É nele que aparecem os nomes tradicionalmente atribuídos aos pais de Maria: Joaquim e Ana. A tradição ligada a esse texto exerceu influência significativa sobre o desenvolvimento da devoção mariana e sobre as festas relacionadas à infância de Maria.

Também a antiga tradição cristã não foi unânime quanto ao lugar do nascimento de Maria. Algumas tradições associaram seu nascimento a Belém, enquanto outras o situaram em Nazaré. A tradição preservada em Jerusalém, porém, tornou-se especialmente importante.

Ali, junto à antiga Piscina Probática, mencionada no Evangelho de São João em conexão com a cura do paralítico, desenvolveu-se desde os primeiros séculos uma veneração ligada ao nascimento de Maria. Já a partir do século V, os cristãos celebravam naquele lugar a memória de sua Natividade. Uma antiga tradição identificava a região com a casa de seus pais, Joaquim e Ana.

Séculos mais tarde, os cruzados encontraram as ruínas do antigo santuário e construíram uma igreja nas proximidades, dedicada à memória de Santa Ana e tradicionalmente associada ao local do nascimento da Virgem. É a atual Basílica de Santa Ana, em Jerusalém.

Debaixo da igreja encontram-se vestígios de construções cristãs mais antigas e espaços escavados na rocha. Esses restos alimentaram durante séculos a tradição que identifica aquele lugar com a casa de Joaquim e Ana. A Igreja, contudo, não apresenta essa localização como um dado revelado pelo Evangelho. O que permanece historicamente incontestável é a antiguidade da veneração cristã naquele lugar em memória do nascimento de Maria.

Foi nesse ambiente de antiga devoção que a festa da Natividade de Maria ganhou forma litúrgica.

Seu testemunho mais antigo conhecido remonta ao século VI, provavelmente no ambiente cristão do Oriente. A celebração foi estabelecida em 8 de setembro, embora a razão histórica exata para a escolha dessa data não seja conhecida com certeza. A festa tornou-se particularmente importante na tradição bizantina e, mais tarde, passou ao Ocidente.

Em Roma, sua introdução ocorreu no século VII. O Papa Sérgio I, que governou a Igreja entre 687 e 701, determinou uma procissão com ladainhas para a celebração. Assim, a festa que havia florescido no Oriente passou também a ocupar um lugar próprio na liturgia romana.

A data de 8 de setembro possui ainda um significado especial na tradição bizantina: ela marca o início do ano litúrgico bizantino, que se encaminha até a celebração da Assunção de Maria, em agosto.

Mas a história dessa festa não pode ser compreendida apenas pelos calendários. É preciso entrar no pensamento dos cristãos que, ao longo dos séculos, contemplaram Maria como aquela que aparece na história antes do nascimento de Cristo, como a aurora que precede o Sol.

Foi justamente essa imagem que encontrou uma de suas expressões mais belas em São João Damasceno, um dos grandes teólogos da Igreja oriental.

Nascido em uma família cristã e ligado inicialmente à administração do califado, João abandonou posteriormente a vida de corte e abraçou a vida monástica. Por volta do ano 700, entrou no mosteiro de São Sabas, nas proximidades de Jerusalém. Ali dedicou-se à vida ascética, à teologia e à composição de homilias e escritos que marcariam profundamente a tradição cristã oriental.

Foi ele quem elevou a Natividade de Maria a uma linguagem de extraordinária beleza.

Em sua homilia para a festa, São João Damasceno contemplava o nascimento da Virgem não como um acontecimento isolado, mas como parte do grande movimento da história da salvação. Para ele, o nascimento de Maria era motivo de alegria porque nela se reconhecia aquela que haveria de tornar-se a Mãe do Salvador.

Em outra passagem célebre, preservada pelo próprio São João Paulo II, o santo compara Maria a uma nova realidade criada por Deus sobre a terra: um céu espiritual preparado para receber aquele que viria do alto.

Essa maneira de falar revela algo essencial na espiritualidade cristã: Maria é contemplada em relação a Cristo. A grandeza de sua festa não está simplesmente no fato de ela ter nascido, mas no mistério para o qual sua existência estava destinada.

Por isso, a antiga tradição cristã recorda também seus pais, Joaquim e Ana. Os Evangelhos não registram suas vidas, e seus nomes chegaram à tradição através do Protoevangelho de Tiago. A tradição cristã os apresenta como os pais de Maria e, portanto, como aqueles através dos quais a história humana de Jesus teria uma ascendência materna.

Ao longo dos séculos, desenvolveu-se também a tradição de que Joaquim e Ana haviam experimentado a dor da ausência de filhos e que, depois de orações e súplicas, receberam Maria como uma graça. Essa narrativa pertence à tradição cristã antiga, não aos Evangelhos canônicos; por isso, deve ser recebida como tradição devocional, e não como relato histórico comprovado pelas Escrituras.

É precisamente nessa distinção que a beleza da festa se torna ainda maior.

A Igreja não precisa inventar detalhes sobre a infância de Maria para reconhecer a importância de seu nascimento. O que celebra é aquilo que sua fé contempla através dela: a preparação humana para o mistério da Encarnação.

Séculos depois, São João Paulo II recordaria, ao falar de Santa Ana, a profunda ligação entre mãe e filha. Segundo sua reflexão, a figura de Ana conduz naturalmente à casa paterna de Maria e àquela relação materna através da qual Maria cresceu.

E essa perspectiva encontra eco também na compreensão cristã de que Deus entrou verdadeiramente na história humana.

Maria nasceu, cresceu e viveu em meio ao povo de Israel. Sua existência pertenceu à história concreta de um povo que aguardava o cumprimento das promessas de Deus. Nela, a tradição cristã reconhece a mulher escolhida para receber em seu seio o Filho de Deus.

Por isso, a Natividade de Maria não é celebrada como simples recordação de um nascimento antigo.

É celebrada como memória de uma esperança que começava a ganhar forma.

A liturgia olha para Maria e, através dela, aponta para Cristo. O nascimento da Mãe antecede o nascimento do Filho. A aurora antecede o dia. A promessa antecede seu cumprimento.

O Papa Bento XVI explicou que a liturgia da Natividade de Maria estabelece uma ligação direta entre o nascimento da Virgem e o nascimento do Messias. A leitura do profeta Miqueias, que anuncia Belém como lugar do nascimento do governante de Israel, é interpretada liturgicamente em conexão com aquela que haveria de dar à luz.

É por isso que, na linguagem da tradição cristã, Maria pode ser chamada de Aurora.

Não porque seja o Sol, mas porque anuncia sua chegada.

O Sol é Cristo.

Maria é aquela que, na fé da Igreja, o precede no horizonte da história.

Assim, quando chega o dia 8 de setembro, a Igreja volta o olhar para um nascimento que os Evangelhos não narraram, mas que a antiga tradição cristã guardou com veneração. Não se trata de preencher o silêncio das Escrituras com histórias inventadas. Trata-se de contemplar, à luz da fé e da tradição, aquela cuja vida está inseparavelmente ligada ao mistério de Cristo.

E é justamente por isso que a festa possui um caráter tão profundamente alegre.

O nascimento de Maria é contemplado como o início de uma etapa decisiva do desígnio de Deus. A casa que haveria de acolher o Verbo começava, na linguagem simbólica da tradição, a existir.

Os antigos autores cristãos encontraram diversas imagens para expressar esse mistério. Uma delas apresenta Maria como uma casa espiritual preparada para o Rei; outra a compara à arca da aliança; outra, à porta pela qual Deus haveria de entrar corporalmente na história. São imagens teológicas e poéticas destinadas a expressar uma verdade central da fé cristã: Maria está voltada inteiramente para Cristo. São João Damasceno foi particularmente eloquente nessa contemplação, chamando-a de porta virginal e divina através da qual Deus haveria de entrar no mundo.

E talvez seja justamente essa a razão mais profunda da alegria desta festa.

Antes que os pastores ouvissem o anúncio dos anjos em Belém, antes que a estrela fosse contemplada pelos Magos, antes que o Verbo se fizesse carne, houve uma mulher cuja existência já estava ligada, no desígnio da fé cristã, ao acontecimento que mudaria a história.

Seu nome era Maria.
No silêncio de seu nascimento, o mundo ainda não sabia o que estava começando.
Não havia ainda Belém.
Não havia ainda a manjedoura.
Não havia ainda a cruz.
Não havia ainda o sepulcro vazio.

Mas, para a fé da Igreja, a história da salvação caminhava em direção a tudo isso.
E por isso o dia 8 de setembro permanece como uma festa de esperança.

A Igreja contempla a menina que nasceu e, nela, reconhece a futura Mãe de Deus.
Contempla a aurora e anuncia o Sol.
Contempla o início e já enxerga, ao longe, o cumprimento.

Hoje celebramos o nascimento de Maria.
E, ao celebrar sua vinda ao mundo, a Igreja proclama que a história estava caminhando para Cristo.
Nossa Senhora, Mãe do Salvador, rogai por nós.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral