A história da Igreja é marcada por homens que chegaram ao trono de Pedro através dos caminhos mais inesperados. Alguns vieram das grandes escolas teológicas, outros da diplomacia, outros ainda das fileiras do episcopado. Eugênio III veio do silêncio dos mosteiros.
Antes de ser papa, era um monge. Antes de governar a cristandade, aprendera a obedecer. Antes de enfrentar revoltas, exílios e conflitos políticos, buscara apenas uma vida escondida em Deus. Contudo, a Providência costuma chamar justamente aqueles que não procuram as honras do mundo. Foi assim com Píer Bernardo Paganelli, que a história conheceria como o Papa Eugênio III.
Ele nasceu em Montemagno, próximo de Pisa, na Toscana, provavelmente no final do século XI ou nos primeiros anos do século XII. Pertencia a uma família nobre e abastada da região, inserida numa sociedade em que a influência política e econômica frequentemente determinava o destino das pessoas.
Desde cedo recebeu sólida formação intelectual e religiosa. Foi educado em Pisa, uma das cidades mais importantes da Itália medieval, então um florescente centro comercial, marítimo e cultural. Ali estudou as disciplinas próprias da formação eclesiástica e recebeu a ordenação sacerdotal.
Os relatos de sua época descrevem um homem de temperamento equilibrado. Não possuía o perfil dos agitadores políticos nem dos polemistas apaixonados. Era discreto, prudente, sereno e profundamente reflexivo. Essas características, que poderiam parecer inadequadas para tempos turbulentos, acabariam tornando-se precisamente sua maior força.
Por volta de 1130, sua vida tomou um rumo decisivo.
Foi então que conheceu Bernardo de Claraval, o grande reformador cisterciense que já era considerado uma das personalidades mais influentes da cristandade. O encontro entre os dois produziu uma amizade espiritual profunda.
Bernardo enxergou naquele sacerdote italiano uma alma sincera, humilde e aberta à ação de Deus. Píer Bernardo, por sua vez, encontrou no santo abade o mestre espiritual que lhe indicaria um caminho de maior radicalidade evangélica.
Cinco anos mais tarde, tomou uma decisão surpreendente.
Abandonou as perspectivas de uma carreira eclesiástica promissora e ingressou na Ordem Cisterciense, em Claraval. Trocou o prestígio pelo silêncio, as possibilidades de ascensão pelo trabalho humilde, a vida pública pela disciplina monástica.
Naquele mosteiro aprendeu a espiritualidade que moldaria toda a sua existência: amor à oração, desapego dos bens materiais, simplicidade de vida e total confiança na providência divina.
Bernardo de Claraval logo percebeu as qualidades de seu discípulo.
Por isso, quando surgiu a necessidade de fortalecer a presença cisterciense em outras regiões da Itália, confiou-lhe novas responsabilidades. Píer Bernardo foi enviado para participar da fundação e organização de comunidades monásticas e acabou assumindo funções de governo dentro da Ordem.
Seu prestígio crescia, mas ele continuava sendo, acima de tudo, um monge.
Pouco depois foi nomeado abade de uma importante comunidade ligada à tradição cisterciense na região de Viterbo. Seu equilíbrio, sua capacidade de liderança e sua reputação de homem íntegro começaram a chamar a atenção das autoridades eclesiásticas.
Entretanto, nada indicava que um dia se tornaria papa.
Quando o Papa Lúcio II morreu, em fevereiro de 1145, a Igreja atravessava um dos períodos mais delicados de sua história.
Roma encontrava-se mergulhada em grave crise política.
Movimentos republicanos, inspirados principalmente pelas ideias de Arnaldo de Bréscia, contestavam o poder temporal dos papas e buscavam estabelecer uma nova ordem política na cidade. A tensão entre facções havia provocado tumultos, ataques contra membros do clero e instabilidade constante.
Os cardeais reunidos para eleger o novo pontífice enfrentavam enorme pressão.
Precisavam encontrar alguém capaz de unir firmeza espiritual, prudência política e independência em relação às disputas que dividiam Roma.
A escolha recaiu sobre um homem que sequer fazia parte do Colégio Cardinalício.
Em 15 de fevereiro de 1145, o abade cisterciense Píer Bernardo Paganelli foi eleito sucessor de São Pedro.
Assumiu o nome de Eugênio III.
A notícia surpreendeu até mesmo São Bernardo de Claraval.
Ao receber a informação, o santo escreveu cartas ao novo pontífice oferecendo orientação e encorajamento. Mais tarde dedicaria a ele uma de suas obras mais famosas, o tratado De Consideratione, um profundo conjunto de reflexões espirituais sobre o exercício do ministério papal.
Mas a alegria da eleição durou pouco.
A situação em Roma era tão perigosa que Eugênio III não conseguiu permanecer na cidade. Poucos dias após sua escolha, precisou partir às pressas para evitar os conflitos que ameaçavam sua segurança.
Sua coroação ocorreu fora de Roma, em ambiente mais seguro.
Começava um pontificado marcado por deslocamentos constantes, negociações difíceis e sucessivos exílios.
Ainda assim, sua autoridade moral conquistava respeito.
Quando os romanos perceberam a serenidade e a prudência do novo papa, muitos passaram a apoiá-lo. Em determinados momentos conseguiu retornar à cidade e restaurar temporariamente a ordem. Contudo, os conflitos ressurgiam repetidamente.
Em 1146, diante de novas tensões relacionadas às exigências políticas dos partidários de Arnaldo de Bréscia, Eugênio III precisou novamente deixar Roma.
Recusava-se a utilizar a violência indiscriminada para resolver os conflitos.
Sua resistência a determinadas medidas extremas colocou sua própria vida em risco.
Foi então que atravessou os Alpes e se dirigiu à França.
Durante aproximadamente três anos permaneceu fora da Itália, mas nem por isso deixou de governar a Igreja.
Pelo contrário.
Seu período de exílio revelou um pontífice extraordinariamente ativo.
Convocou sínodos e concílios destinados a fortalecer a disciplina eclesiástica, combater abusos e promover reformas. Entre eles destacaram-se os concílios realizados em Paris, Reims e Trier, importantes para a consolidação da vida da Igreja no século XII.
Demonstrou grande preocupação com a formação do clero e com a ortodoxia doutrinal.
Não hesitou em intervir quando julgava necessário preservar a unidade e a fidelidade da Igreja. Foi durante seu pontificado que questões teológicas importantes receberam atenção especial, especialmente diante do crescimento das escolas catedrais e do desenvolvimento do pensamento escolástico.
Ao mesmo tempo, incentivou a expansão missionária.
Entre os homens enviados para fortalecer a organização eclesiástica em regiões distantes estava Nicolau Breakspear, que mais tarde se tornaria o Papa Adriano IV, o único pontífice inglês da história. Sua missão na Escandinávia contribuiu significativamente para a consolidação da estrutura eclesiástica nos países nórdicos.
Outra questão de enorme importância marcou seu governo.
Em 1145 chegaram notícias alarmantes do Oriente: o Condado de Edessa, um dos principais estados cristãos surgidos após a Primeira Cruzada, havia sido conquistado pelas forças muçulmanas.
Diante da gravidade da situação, Eugênio III publicou a bula Quantum Praedecessores, convocando a Segunda Cruzada.
A pregação da expedição foi confiada principalmente a São Bernardo de Claraval, cuja influência mobilizou grande número de nobres e governantes europeus.
Embora a cruzada não tenha alcançado os resultados esperados militarmente, o episódio demonstra a preocupação constante do pontífice com a proteção dos cristãos do Oriente e dos lugares santos.
Somente nos últimos anos de seu pontificado Eugênio III conseguiu retornar com maior estabilidade à Itália.
Apoiado pelo imperador Frederico I Barba-Roxa, procurou restaurar a ordem nos territórios ligados à Santa Sé e fortalecer as estruturas administrativas da Igreja.
Mesmo diante de tantos desafios, nunca abandonou o espírito monástico que havia aprendido em Claraval.
Os cronistas observam que continuou vivendo com simplicidade, evitando luxos excessivos e conservando hábitos de oração que remontavam à sua vida cisterciense.
Era um papa, mas permanecia um monge. Essa combinação rara de autoridade e humildade impressionava seus contemporâneos.
No verão de 1153, enquanto ainda trabalhava pela estabilidade da Igreja, sua saúde começou a enfraquecer.
No dia 8 de julho daquele ano, Eugênio III morreu em Tivoli, próximo de Roma.
Tinha governado a Igreja durante pouco mais de oito anos, em um dos períodos mais turbulentos do século XII.
Sua morte foi lamentada por aqueles que haviam testemunhado sua dedicação incansável ao serviço da Igreja. Mesmo os adversários reconheciam sua honestidade, sua moderação e sua profunda vida espiritual.
Com o passar dos séculos, sua memória permaneceu viva sobretudo entre os cistercienses, que jamais esqueceram aquele discípulo de São Bernardo que levou o espírito de Claraval até o trono de Pedro.
Em 1872, o Papa Pio IX confirmou oficialmente seu culto, reconhecendo-o como Beato Eugênio III.
Hoje sua figura continua a recordar uma verdade preciosa: a Igreja não é conduzida apenas pela força das estratégias humanas, mas pela fidelidade daqueles que, mesmo em meio às tempestades da história, permanecem ancorados em Deus.
Monge no coração, pastor por vocação e papa por desígnio da Providência, Eugênio III atravessou tempos de violência sem perder a serenidade. E foi justamente essa serenidade, cultivada no silêncio do claustro, que lhe permitiu sustentar a barca de Pedro quando as ondas pareciam mais ameaçadoras.
Santo Eugênio, rogai por nós!
É sempre possível constatar, ao longo da História, como essencialmente as mesmas situações – pois o Homem é sempre o mesmo na sua miséria pessoal e na sua potencial grandeza em Cristo – acontecem, ainda que com roupagens diferentes. O empenho da Igreja, hoje, internamente exige disciplinar as insubordinações doutrinárias e litúrgicas, reformar o ensino de clérigos e leigos na ortodoxia da Fé, e excluir os que, de dentro dela, não agem em comunhão com os preceitos universais de Jesus; e externamente reagir à política dos que pretendem (!) lhe subtrair partidariamente o poder que lhe é legítimo e conferido por Deus, bem como se apropriar dos seus bens materiais (e espirituais) para fins mundanos. Santo Eugênio teria hoje os seus mesmos trabalhos, e nós fiéis também temos o dever de apoiar a volta da santidade para a nossa residência espiritual, com orações e ações.
Senhor, santo e supremo Pontífice, concedei-nos pela intercessão de São Eugênio III a paz e a proteção da Igreja, e a graça de Vos deixar comandar soberanamente as nossas almas, para que não fracasse, pela desunião Convosco, a cruzada da nossa santificação; e, assim curados das enfermidades de traição de alma por nossos pecados, com o apoio da Vossa realeza iniciemos a construção do retorno para a nossa casa definitiva, o Vosso palácio Celeste. Por Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora. Amém.
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional