Nas terras de Loro Piceno, na região italiana das Marcas, nasceu Liberato, homem ligado por sua origem à poderosa família dos Brunforte. Naquele tempo, pertencer a uma linhagem nobre significava carregar não apenas um nome, mas também terras, direitos, influência e responsabilidades. E Liberato conhecia de perto esse mundo de privilégios.
Havia, porém, dentro dele, um chamado que nenhum título poderia silenciar.
Ainda jovem, diante da fé e de sua profunda devoção à Virgem Maria, Liberato decidiu abandonar aquilo que muitos passariam a vida inteira tentando conquistar. Renunciou às riquezas, às terras e à condição senhorial que lhe pertenciam por herança. Os bens que recebera de seu tio Fidesmido foram transferidos para seu irmão Gualtério — ou Walter, como aparece em algumas fontes —, e Liberato escolheu para si um caminho completamente diferente.
Não queria mais viver para aquilo que possuía.
Queria pertencer a Deus.
Sua busca o levou ao convento de Roccabruna, na região de Urbino. Ali começou uma nova etapa de sua vida. Mais tarde, depois de receber a ordenação sacerdotal, cresceu nele o desejo de uma existência ainda mais recolhida, marcada pela penitência, pela oração e pela contemplação.
Foi então que se dirigiu a Sofiano, lugar solitário situado nas proximidades do antigo castelo dos Brunforte, onde abraçou a vida franciscana e vestiu o hábito da Ordem dos Frades Menores.
Era uma escolha coerente com aquilo que havia feito desde o princípio: quanto mais o mundo lhe oferecia, mais Liberato parecia desejar o silêncio; quanto maior fora sua condição entre os homens, mais profundamente buscava a humildade.
Sofiano tornou-se o lugar de sua entrega.
Ali, segundo a tradição franciscana preservada nos relatos dos Fioretti de São Francisco, viveu um frade de extraordinária vida espiritual. Liberato aparece associado à figura de um religioso que permanecia em profunda comunhão com Deus e possuía um elevado dom de contemplação. Durante a oração, dizia-se que chegava a elevar-se do chão, tomado pelo êxtase.
E havia ainda outra imagem que atravessou os séculos.
Os pássaros, segundo o relato, acompanhavam Liberato por onde ele passava. Pousavam em seus braços, sobre sua cabeça e em seus ombros, enquanto cantavam. A cena, preservada pela tradição franciscana, apresenta o frade como alguém cuja vida parecia ter recuperado aquela familiaridade com a criação que os antigos relatos também associavam a São Francisco de Assis.
Liberato amava a solidão e falava pouco. Seu silêncio, contudo, não era vazio. Quando alguém o procurava e lhe fazia perguntas, suas respostas eram apresentadas pelos relatos como portadoras de uma sabedoria extraordinária, comparada à sabedoria dos anjos.
Vivia com alegria.
Trabalhava.
Fazia penitência.
Rezava.
E buscava, na contemplação, aquilo que havia procurado desde o momento em que deixara para trás seus títulos e suas posses: a presença de Deus.
Por isso, os irmãos o tinham em grande estima, e sua reputação de santidade começou a crescer entre aqueles que o conheciam.
A vida de Liberato, entretanto, não seria longa.
Quando chegou ao fim de seus dias, encontrou-se gravemente enfermo. A tradição conta que, mesmo diante da doença e da incapacidade de ingerir líquidos, recusava confiar sua esperança aos remédios terrenos. Sua confiança estava depositada em Cristo, o médico celestial, e na intercessão da Virgem Maria, por quem nutrira profunda devoção desde a juventude.
Foi nesse momento de extrema fragilidade que ocorreu aquilo que a tradição franciscana conservou como a grande visão de seus últimos instantes.
Enquanto Liberato permanecia em oração, a Virgem Maria teria aparecido diante dele acompanhada por três virgens e por uma multidão de anjos.
Para aquele homem que havia abandonado as riquezas da terra para buscar os tesouros do céu, a aparição teria trazido um consolo profundo. A dor deu lugar à alegria; a enfermidade, ao conforto espiritual.
Liberato então suplicou à Mãe de Jesus que, se fosse digno de tal graça, o conduzisse à vida eterna.
E, segundo o relato tradicional, Maria o chamou pelo nome e o tranquilizou, dizendo que sua oração havia sido ouvida e que ela viera confortá-lo antes de sua partida deste mundo.
Pouco depois, Liberato deixou a vida terrena.
Aqui, porém, a história exige cautela. As fontes antigas e os estudos posteriores não concordam plenamente quanto ao ano de sua morte. Há tradições que apontam diferentes datas do século XIII. O que permanece firme na memória franciscana é que ele morreu no eremitério de Sofiano, depois de uma vida marcada pela oração e pela contemplação, e que sua lembrança permaneceu ligada àquele lugar.
Sua história não terminou com sua morte.
A veneração dos fiéis cresceu ao longo dos séculos, e Sofiano tornou-se um lugar associado à memória de Liberato. Mais tarde, foi erguido um novo convento, e uma igreja passou a guardar suas relíquias. O lugar acabaria conhecido como Santuário de São Liberato, perpetuando na própria paisagem o nome daquele nobre que havia renunciado ao poder para abraçar a pobreza franciscana.
A devoção popular, porém, antecedeu por muito tempo o reconhecimento oficial da Igreja.
Há registros de uma tradição de culto antigo, e o reconhecimento canônico ocorreu em etapas. Em 2 de setembro de 1713, o papa Clemente XI aprovou o culto de Liberato como culto imemorial. Séculos depois, em 26 de setembro de 1868, o papa Pio IX ratificou esse reconhecimento, concedendo ofício e Missa em sua honra. Por isso, fontes franciscanas contemporâneas o apresentam como Bem-aventurado Liberato de Loro Piceno, embora a devoção popular o invoque tradicionalmente como São Liberato.
Essa distinção não diminui sua história. Pelo contrário: revela como sua memória atravessou o tempo.
Primeiro, houve o homem.
Depois, o frade.
Em seguida, o eremita lembrado por sua vida de oração.
Vieram então os relatos de sua santidade, a devoção dos habitantes da região, a preservação de suas relíquias e a confirmação eclesiástica de um culto que já havia atravessado gerações.
E permanece, até hoje, a imagem de Liberato como aquele que, podendo permanecer cercado pelos privilégios de sua condição, preferiu a simplicidade de um convento; podendo conservar terras e títulos, escolheu a pobreza; podendo buscar o reconhecimento dos homens, retirou-se para o silêncio de Sofiano.
Sua memória litúrgica é celebrada em 6 de setembro. O Santuário de São Liberato, em território ligado à antiga presença franciscana das Marcas, continua associado à devoção que nasceu em torno de sua memória.
Talvez seja justamente essa a força que atravessou os séculos na história de Liberato.
Ele não é lembrado porque acumulou riquezas, mas porque soube abandoná-las.
Não porque procurou um lugar de destaque, mas porque escolheu o escondimento.
Não porque desejou dominar, mas porque preferiu servir.
E, no silêncio de Sofiano, sua vida ficou como testemunho de uma escolha radical: deixar para trás aquilo que passa para buscar aquilo que, segundo sua fé, permanece.
São Liberato de Loro, rogai por nós!
A história de São Liberato mostra a simplicidade que deve orientar a vida cristã. Suas ações sempre foram marcadas pelo amor a deus, ao próximo e a natureza. Como um verdadeiro franciscano, Liberato abandonou tudo para poder aproximar-se verdadeiramente do Pai do Céu. O convite que nos fica é o de colocar Deus em primeiro lugar na nossa vida.
Criador Do Céu e da Terra, Deus de amor e de bondade, concedei-nos, pelos méritos de são Liberato, alcançar a simplicidade de vida necessária para bem viver minha vocação neste mundo. Por Cristo nosso Senhor. Amém.
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional