Houve uma jovem que, segundo uma antiga tradição siciliana, nasceu em Palermo na primeira metade do século XII, quando a Sicília vivia sob o domínio dos reis normandos.
Seu nome era Rosália.
A tradição a apresenta como filha de Sinibaldo, membro de uma família nobre ligada à corte normanda. Seu pai teria recebido terras na região da Quisquina e do Monte das Rosas, e a antiga tradição chegou a associar sua linhagem à descendência de Carlos Magno. Essa ascendência foi acolhida pela tradição hagiográfica de seu tempo e chegou a ser incorporada ao Martirológio Romano durante o pontificado de Urbano VIII.
Rosália cresceu, portanto, cercada por aquilo que o mundo costumava considerar grandeza.
Havia riqueza, havia prestígio, havia uma corte.
E havia diante dela um futuro que poderia ter sido construído segundo os costumes próprios de sua condição.
Segundo a tradição, durante a juventude Rosália esteve ligada à corte normanda e teria vivido junto à rainha Margarida, esposa de Guilherme I da Sicília. Mas o caminho que se abria diante dela não seria o caminho das honras humanas.
Em sua alma, começava a nascer outro desejo.
Um desejo de silêncio, de renúncia, de Deus.
A tradição de sua vida conta que, ainda muito jovem, Rosália recebeu um chamado sobrenatural para abandonar o mundo. Algumas versões afirmam que a Santíssima Virgem lhe apareceu e a aconselhou a deixar as riquezas e as vaidades da vida cortesã.
Rosália teria então tomado uma decisão que, para os olhos do mundo, parecia incompreensível.
Deixaria aquilo que muitos desejariam possuir.
E escolheria aquilo que poucos desejavam: a solidão.
Não procurou outro palácio.
Procurou uma gruta.
Foi para a região da Quisquina, onde encontrou uma cavidade escondida entre as rochas. Ali, segundo a tradição, começou sua vida de eremita.
A montanha não lhe oferecia conforto.
Não havia ali os salões da corte, nem as vestes luxuosas, nem a companhia permanente de pessoas.
Havia pedra, silêncio, vegetação.
E a imensidão do céu.
Naquela pequena gruta, Rosália teria encontrado um lugar onde poderia dedicar-se inteiramente à oração e à penitência.
Existe naquele lugar uma inscrição latina tradicionalmente atribuída à própria Rosália. Ela foi encontrada em 25 de agosto de 1624, quarenta dias depois da descoberta de suas supostas relíquias no Monte Pellegrino. Dois pedreiros que trabalhavam nas proximidades do convento dominicano de Santo Estêvão de Quisquina encontraram a inscrição gravada na rocha.
As palavras são simples:
“Eu, Rosália Sinibaldi, filha do senhor da Quisquina e das Rosas, por amor do meu Senhor Jesus Cristo, decidi habitar nesta gruta.”
Poucas palavras.
Mas uma vida inteira parece caber dentro delas.
Por amor.
Não por medo.
Não por fuga de alguma riqueza que já não desejasse.
Não por desprezo às pessoas.
Mas, segundo a própria tradição preservada naquela inscrição, por amor a Jesus Cristo.
A inscrição tornou-se uma das principais testemunhas materiais associadas à tradição de sua permanência na Quisquina. No entanto, estudos históricos e paleográficos modernos observam que sua autenticidade como inscrição realmente feita pela própria santa não pode ser estabelecida com absoluta certeza. Por isso, é mais prudente apresentá-la como uma tradição antiga ligada à memória de Rosália.
Depois de algum tempo na Quisquina, a tradição afirma que Rosália prosseguiu sua peregrinação de solidão até o Monte Pellegrino, próximo a Palermo.
Ali encontrou outro refúgio.
E seria ali que seu nome permaneceria ligado para sempre à história da cidade.
O Monte Pellegrino erguia-se diante do mar, áspero e silencioso. Entre suas rochas havia cavernas onde um eremita poderia desaparecer dos olhos do mundo.
Rosália escolheu uma delas.
E ali, segundo a tradição, permaneceu até o fim de seus dias.
A jovem que havia conhecido a corte agora vivia escondida entre pedras.
Aquela que poderia ter recebido honras preferiu a penitência.
Aquela que poderia ter sido lembrada por sua riqueza escolheu ser lembrada por sua oração.
Sua existência passou a ser associada ao silêncio, à austeridade e à contemplação.
A tradição afirma ainda que seus últimos anos foram marcados por uma penitência rigorosa e que ela teria recebido a Eucaristia de maneira milagrosa. São elementos pertencentes à tradição hagiográfica de Santa Rosália e devem ser compreendidos dentro desse contexto devocional, pois as fontes históricas disponíveis não permitem reconstruir todos os detalhes de sua vida com a mesma segurança documental.
Por volta do ano 1160, segundo a tradição, Rosália morreu no Monte Pellegrino.
Teria então cerca de trinta anos.
Seu corpo foi sepultado na solidão da montanha.
E, depois disso, o silêncio voltou a cobrir sua memória.
Durante séculos, a devoção a Rosália permaneceu presente na Sicília, embora sua história não tivesse a documentação abundante que existe para outros santos medievais. A memória da eremita continuou ligada principalmente às tradições de Palermo e da Quisquina.
Então chegou o século XVII, e a história de Rosália voltaria a emergir das profundezas da montanha.
Palermo enfrentava uma terrível epidemia de peste em 1624. A cidade estava mergulhada no medo. As pessoas morriam. As famílias choravam. As ruas eram marcadas pela doença e pela incerteza.
Foi nesse contexto que ocorreu o acontecimento que transformaria definitivamente a história de Santa Rosália.
Em 15 de julho de 1624, foram encontrados ossos humanos em uma gruta do Monte Pellegrino. Eles não traziam uma inscrição que identificasse a pessoa a quem pertenciam. O achado, portanto, não podia ser simplesmente aceito sem investigação.
O cardeal Giannettino Doria, então arcebispo de Palermo, determinou que os restos fossem examinados.
Foi constituída uma comissão formada por médicos e teólogos.
O objetivo era descobrir a verdade sobre aqueles ossos.
Não bastava a emoção popular.
Era necessário examiná-los.
E foi justamente isso que aconteceu.
Em fevereiro de 1625, depois das avaliações e discussões da comissão, os restos foram reconhecidos como sendo as relíquias de Santa Rosália. A documentação preservada pelo Santuário e pela Igreja de Palermo registra a entrega oficial das relíquias ao Senado palermitano em 22 de fevereiro de 1625.
Mas havia algo ainda mais extraordinário.
Quarenta dias depois da descoberta dos ossos, enquanto dois pedreiros trabalhavam junto ao convento dominicano de Santo Estêvão de Quisquina, encontraram uma antiga inscrição gravada na rocha.
O nome estava ali:
Rosália Sinibaldi.
E junto ao nome, a declaração de que havia escolhido aquela gruta por amor a Jesus Cristo.
Para os devotos daquele tempo, a descoberta parecia iluminar uma história que havia permanecido durante séculos envolta em silêncio.
A gruta da Quisquina, a antiga tradição da eremita e a descoberta dos restos mortais no Monte Pellegrino passaram a ser contempladas como partes de uma mesma memória.
A devoção popular cresceu rapidamente.
Palermo começou a olhar para aquela jovem eremita não apenas como uma lembrança do passado, mas como sua intercessora.
A cidade passou a confiar-se a Rosália. E sua fama ultrapassou as montanhas da Sicília.
Em 1630, o Papa Urbano VIII incluiu o nome de Rosália no Martirológio Romano, em 15 de julho e em 4 de setembro.
A partir daquele momento, a jovem que havia escolhido desaparecer do mundo tornou-se uma das figuras religiosas mais profundamente associadas à cidade de Palermo.
Seu nome seria pronunciado nas igrejas.
Sua imagem seria levada pelas ruas.
Seu santuário no Monte Pellegrino se tornaria destino de peregrinos.
E suas relíquias seriam guardadas com grande veneração.
A primeira urna destinada a transportar suas relíquias pelas ruas de Palermo foi encomendada em 1625 pelo Senado da cidade e pelo cardeal Doria. A Catedral de Palermo conserva essa urna histórica, feita em prata e cristal.
A primeira grande procissão das relíquias aconteceu em junho de 1625.
As ruas de Palermo receberam a procissão.
O povo acompanhou a urna.
As luzes das tochas e a multidão transformaram aquele momento em uma das maiores manifestações da devoção à nova padroeira da cidade. A documentação histórica registra que a procissão ocorreu em 9 de junho de 1625.
E a memória da epidemia ficou para sempre ligada a Santa Rosália.
A tradição palermitana interpretou a diminuição da peste após a procissão como uma graça alcançada por sua intercessão. A devoção a Rosália consolidou-se, assim, profundamente ligada à proteção contra a peste.
Mas talvez a parte mais bela de sua história não esteja nas procissões, nem na urna de prata, nem no reconhecimento público.
Está naquela pequena gruta.
Porque foi ali, segundo a antiga tradição, que uma jovem pertencente à nobreza decidiu trocar a segurança da riqueza pela aspereza da pedra.
Ali não havia aplausos, não havia multidões, não havia procissões.
Havia somente uma mulher, uma gruta e sua decisão de entregar-se a Deus.
Séculos depois, quando os homens procuraram seus restos mortais, encontraram seus ossos escondidos entre as pedras.
E, na Quisquina, encontraram também aquelas palavras: "Por amor do meu Senhor Jesus Cristo".
É como se toda a história de Rosália pudesse ser compreendida a partir dessa única escolha.
Ela não fugiu simplesmente de um lugar.
Ela procurou outro.
Não trocou apenas um palácio por uma caverna.
Trocou a glória passageira pela esperança eterna.
E, paradoxalmente, quanto mais procurou desaparecer, mais seu nome foi lembrado.
A jovem eremita que escolheu a solidão tornou-se padroeira de uma das maiores cidades da Sicília.
A mulher que viveu entre rochas passou a ser representada com flores, coroas e símbolos de pureza.
Aquela que abandonou as riquezas tornou-se honrada em altares.
E a que desejou somente pertencer a Cristo acabou pertencendo à memória de gerações inteiras.
Santa Rosália permanece, assim, como uma figura envolta em silêncio, tradição e devoção.
Sua história medieval não pode ser reconstruída em todos os seus detalhes com a certeza documental que gostaríamos de possuir. Mas sua memória atravessou os séculos e ganhou uma força extraordinária, sobretudo depois da descoberta das relíquias em 1624 e da consolidação de seu culto em Palermo.
No alto do Monte Pellegrino, diante do mar, permanece a lembrança daquela mulher que escolheu a solidão.
E talvez seja justamente ali que sua história encontre sua imagem mais perfeita:
uma jovem escondida do mundo, uma gruta silenciosa, uma vida entregue à oração, e um nome que, depois de séculos, voltou a ser pronunciado por uma cidade inteira.
Rosália escolheu a gruta.
Escolheu a penitência.
Escolheu o silêncio.
E, segundo a tradição que atravessou os séculos, escolheu tudo isso por uma única razão: o amor por Jesus Cristo.
Santa Rosália, rogai por nós!
Deus realmente nos fala no silêncio. A vida de santa Rosália nos confirma que a solidão pode ser uma forma privilegiada de encontrar-se com Deus. Num mundo marcado pelo movimento e pelo barulho constante, fica-nos o desafio de encontrar momentos de silêncio para a contemplação do Mistério de Deus.
Senhor Pai de amor, pela intercessão de santa Rosália, que despojastes de todas as vaidades vãs deste mundo para vos dedicar inteiramente a uma vida de penitência e orações, dai-me o espírito da piedade, oração constante e que nos momentos de solidão e provações possa eu portar-me dignamente para poder um dia merecer os momentos felizes e eternos. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional