Santo do Dia
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São Gregório Magno

São Gregório Magno

O homem que preferiu ser servo

“Onde existe o amor, realizam-se coisas grandes.”

Roma ainda carregava nas pedras a memória de um império que parecia não querer desaparecer. Os antigos edifícios testemunhavam a grandeza de um mundo que havia conhecido o poder, a riqueza e a autoridade de César. Mas, no século VI, aquela mesma Roma atravessava tempos difíceis. A antiga ordem havia se enfraquecido, guerras e invasões deixavam marcas profundas, a fome atingia populações inteiras e epidemias percorriam as cidades.

Foi nesse cenário que, por volta do ano 540, nasceu Gregório.

Ele veio ao mundo em Roma, no seio da poderosa gens Anicia, uma família patrícia de antiga tradição e profundamente ligada ao cristianismo e à Sé Apostólica. Entre seus antepassados estavam dois homens que haviam ocupado a Cátedra de Pedro: Félix III, que foi Papa entre 483 e 492, e Agapito, Papa entre 535 e 536. A casa onde Gregório cresceu situava-se no Clivus Scauri, cercada pelas lembranças da Roma antiga, mas também por uma fé cristã que já havia transformado profundamente aquela sociedade.

A fé não lhe veio apenas dos livros.

Gregório cresceu cercado pelo testemunho de sua própria família. Seus pais, Gordiano e Sílvia, eram cristãos fervorosos, e suas tias paternas, Tarsila e Emiliana, viveram como virgens consagradas. Naquela casa, a antiga dignidade romana encontrava-se com a austeridade cristã. O menino que um dia governaria Roma aprenderia desde cedo que uma vida verdadeiramente grande não se mede pela posição que alguém ocupa, mas pelo serviço que é capaz de prestar.

Gregório, entretanto, não começou sua vida destinado ao mosteiro.

Como era próprio de sua condição e de sua formação, entrou na carreira administrativa. Revelou capacidade, inteligência e profundo senso de responsabilidade. Em 572, quando tinha pouco mais de trinta anos, alcançou o mais elevado cargo civil da cidade: tornou-se Praefectus Urbis, prefeito de Roma.

A experiência haveria de marcar profundamente o futuro Papa.

Ao ocupar uma função tão elevada, Gregório conheceu de perto as dificuldades concretas de uma sociedade em crise. Aprendeu a lidar com questões administrativas, com a pobreza, com as necessidades da população e com a fragilidade da ordem pública. Anos mais tarde, quando governasse a Igreja de Roma, essa experiência civil seria colocada a serviço de uma missão muito maior.

Mas havia dentro dele uma inquietação que nenhum cargo conseguia silenciar.

Gregório começou a desejar outra vida.

Abandonou a carreira pública e transformou a própria casa de família no mosteiro de Santo André, no Monte Célio. Ali, por volta de 574, abraçou a vida monástica. Sob a influência da espiritualidade beneditina, encontrou aquilo que havia procurado em meio às responsabilidades do mundo: silêncio, oração, estudo e contemplação.

Ele próprio lembraria mais tarde daqueles anos com uma espécie de saudade santa. Para Gregório, aquele período de recolhimento havia sido um dos tempos mais felizes de sua existência. No mosteiro, dedicou-se profundamente à Sagrada Escritura e aos ensinamentos dos Padres da Igreja. O homem que antes administrava os assuntos de Roma agora procurava administrar, antes de tudo, o próprio coração.

Contudo, Deus parecia conduzi-lo para fora do claustro.

O Papa Pelágio II o ordenou diácono e o enviou a Constantinopla como seu representante junto ao imperador do Oriente. Mesmo distante de Roma e envolvido em assuntos diplomáticos, Gregório conservou o espírito monástico, procurando viver com simplicidade e pobreza.

Depois retornou a Roma.

Ali, embora permanecesse ligado ao mosteiro, tornou-se colaborador próximo de Pelágio II. Foi um período em que a cidade conheceu algumas de suas horas mais dolorosas. A peste avançava, a fome castigava a população e os conflitos políticos e militares agravavam a insegurança.

Então veio a tragédia.

Uma epidemia de peste atingiu o próprio Papa Pelágio II, que morreu em 590.

Roma precisava de um pastor.

E aquele homem que havia desejado esconder-se no silêncio do mosteiro foi chamado justamente para o lugar do qual mais desejava permanecer distante.

Gregório foi aclamado sucessor de Pedro e tornou-se Bispo de Roma. Seu pontificado começou em 3 de setembro de 590 e terminaria apenas com sua morte, em 12 de março de 604.

Ele não recebeu o papado como quem recebe uma honra.

Recebeu-o como quem aceita uma cruz.

O monge tornou-se Papa. O homem que desejava contemplar silenciosamente a Palavra de Deus agora precisava falar ao povo. Aquele que desejava permanecer escondido atrás das paredes do mosteiro passou a carregar sobre os ombros as dores de uma cidade e de uma Igreja inteira.

Gregório compreendeu que o poder de Roma deveria ser transformado em serviço.

Seu governo foi marcado por uma extraordinária capacidade administrativa, mas também por uma profunda preocupação pastoral. Ele organizou os bens da Igreja, procurou socorrer os necessitados e enfrentou problemas civis e religiosos em uma época em que a autoridade política na Itália era frágil.

Entretanto, sua visão ultrapassava as muralhas de Roma.

Gregório olhava para os povos que estavam surgindo na nova Europa e enxergava neles não inimigos, mas homens que também precisavam ouvir a mensagem do Evangelho. Sua preocupação alcançou os lombardos, os francos, os visigodos e outros povos que formavam a nova realidade europeia. Em vez de considerar os lombardos simplesmente como bárbaros a serem destruídos, procurou estabelecer relações de fraternidade e trabalhar pela paz.

Mas havia uma terra que ocupava um lugar especial em seu coração.

A Inglaterra.

A tradição conserva um episódio que revela o olhar missionário de Gregório. Antes mesmo de se tornar Papa, ele teria demonstrado interesse pelos povos anglos. Quando chegou ao pontificado, decidiu transformar esse desejo em missão concreta.

Enviou monges para evangelizar a Inglaterra, colocando Agostinho, monge do mosteiro de Santo André, à frente da missão. Assim começou uma das grandes iniciativas missionárias da Igreja no Ocidente. Agostinho chegaria à Inglaterra e se tornaria o primeiro Arcebispo de Cantuária.

Para Gregório, aquela missão não era apenas uma conquista territorial da Igreja.

Era uma conquista de almas.

Por isso, considerou a evangelização da Inglaterra uma das maiores realizações de seu pontificado.

O Papa também deixou uma marca profunda na liturgia e na vida espiritual da Igreja.

Seu nome ficou ligado à organização e à reforma do canto litúrgico romano, tradição que posteriormente recebeu o nome de canto gregoriano. É importante, porém, não atribuir a Gregório, de maneira simplista, a composição de todo o repertório que hoje recebe esse nome. A tradição medieval associou fortemente seu nome à organização do canto romano, enquanto a formação histórica do repertório foi um processo muito mais amplo e posterior.

Também realizou mudanças importantes na celebração litúrgica. Entre elas, determinou a recitação do Pai-Nosso no Cânon da Missa, antes da fração do pão.

Sua obra, contudo, não se limitou à liturgia.

Gregório foi também um escritor de extraordinária influência.

Entre suas obras encontra-se a Regra Pastoral, escrita no início de seu episcopado, na qual refletiu profundamente sobre a responsabilidade daqueles que recebem a missão de conduzir o povo de Deus. Para ele, governar a Igreja não significava dominar, mas servir; não significava procurar a própria glória, mas carregar as fraquezas daqueles que haviam sido confiados ao pastor.

Escreveu ainda os Diálogos, obra na qual registrou relatos sobre homens e mulheres considerados santos de seu tempo. O segundo livro dessa obra é especialmente importante porque apresenta a vida de São Bento de Núrsia e contribuiu para a difusão da memória do grande patriarca do monaquismo ocidental.

Gregório escreveu também numerosas cartas e comentários bíblicos. Seus textos revelam um homem que conhecia profundamente as Escrituras e procurava aplicá-las às circunstâncias concretas da vida.

Ele não queria simplesmente falar sobre Deus.

Queria ensinar os homens a viver diante de Deus.

Por isso, quando a Igreja posteriormente o reconheceu como um dos quatro grandes Doutores do Ocidente, não estava apenas honrando um escritor brilhante. Reconhecia um mestre cuja influência alcançaria séculos de cristianismo.

Gregório foi chamado de Magno, o Grande.

Mas existe uma ironia profundamente cristã nesse título.
O homem que a história chamou de grande passou boa parte da vida tentando escapar das grandezas do mundo.
Ele havia sido prefeito de Roma.
Havia conhecido a administração pública.
Havia entrado no mosteiro.
Havia sido enviado a Constantinopla.
Havia servido ao Papa.
E finalmente havia recebido a Cátedra de Pedro.
Mas nunca deixou de se considerar um servo.

Foi justamente por isso que adotou e difundiu o título pelo qual os Papas passariam a se apresentar: “servo dos servos de Deus”.

Séculos depois, Bento XVI recordaria essa dimensão essencial de sua vida. Em sua catequese sobre São Gregório, afirmou que ele desejava viver como monge, em constante diálogo com Deus, mas que, por amor, aceitou tornar-se servidor de todos em uma época marcada por tribulações e sofrimentos.

Essa talvez seja a chave para compreender sua verdadeira grandeza.

Gregório não deixou o mosteiro porque deixou de amar a vida monástica.

Saiu dele porque o amor o chamou para servir.

Seu pontificado foi uma longa tensão entre o desejo de contemplar e a necessidade de agir. Entre o silêncio do claustro e o tumulto de Roma. Entre a oração e a administração. Entre a paz que procurava para sua alma e as guerras que precisou enfrentar no mundo.

E talvez tenha sido justamente nessa tensão que sua santidade amadureceu.
O homem que queria viver escondido tornou-se uma das figuras mais influentes da Igreja antiga.
O administrador de Roma tornou-se pastor.
O monge tornou-se Papa.
O escritor tornou-se Doutor da Igreja.
E aquele que recebeu o nome de “Grande” preferiu apresentar-se como servo.

Quando morreu, em 12 de março de 604, deixava para trás uma Igreja profundamente marcada por seu trabalho. Seu pontificado havia ajudado a consolidar a autoridade da Sé Romana, fortalecer a missão evangelizadora do Ocidente, organizar aspectos da vida litúrgica e oferecer à Igreja uma riqueza de ensinamentos que continuaria atravessando os séculos.

Gregório Magno viveu quando o mundo antigo começava a desaparecer e uma nova Europa começava a nascer.

Ele esteve no intervalo entre dois tempos.

E, naquele intervalo, não procurou reconstruir o passado pela força nem conquistar o futuro pelo poder.

Preferiu servir.

Por isso, sua memória permanece, não apenas nas páginas da história. Não apenas nos livros dos Padres da Igreja.
Não apenas no canto que durante séculos elevou a oração dos cristãos.

Permanece na própria ideia de que a verdadeira grandeza não está em ser servido, mas em servir.

São Gregório Magno compreendeu isso quando deixou o cargo de prefeito para buscar o silêncio do mosteiro.
Compreendeu novamente quando foi arrancado do mosteiro para assumir a Cátedra de Pedro.

E demonstrou isso até o fim, quando aceitou carregar sobre os ombros as dores de uma Igreja e de um mundo em transformação.

Assim, aquele que desejava ser monge tornou-se Papa.
Aquele que desejava permanecer oculto tornou-se mestre.
E aquele que foi chamado de Grande escolheu permanecer, diante de Deus e dos homens, simplesmente servo.

São Gregório Magno, rogai por nós.

Reflexão

São Gregório, como Papa, foi um exemplo de humildade. Quando recebia louvores pelo que fazia, respondia com palavras que indicavam como era grande sua humildade. Dizia São Gregório: "Os bispos são os olhos do povo. Se os que governam o povo não têm luz, os que lhes estão submetidos só podem cair em confusão e erro".

Oração

Deus eterno e todo-poderoso, quiseste que São Gregório Magno governasse todo o vosso povo, servindo-o pela palavra e pelo exemplo. Guardai, por suas preces, os pastores de vossa Igreja e as ovelhas a eles confiadas, guiando-os no caminho da salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional