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São Bernardino Realino

São Bernardino Realino

Há santos que parecem destinados à santidade desde o berço. Outros, porém, percorrem longos caminhos antes de compreender que nenhuma honra humana é capaz de preencher o coração criado para Deus. A história de São Bernardino Realino pertence a esta segunda categoria. Sua vida não começou entre mosteiros, penitências e visões místicas, mas entre tribunais, cargos públicos, estudos universitários e promissoras perspectivas de sucesso. Nada indicava que aquele jovem brilhante e respeitado se tornaria um dos mais amados sacerdotes da Itália. Contudo, quando permitiu que Cristo ocupasse o centro de sua existência, tudo mudou.

Bernardino nasceu em 1º de dezembro de 1530, em Capri, próximo a Nápoles, no seio de uma família nobre e profundamente cristã. Desde a infância recebeu sólida formação religiosa, especialmente por influência de sua mãe, que lhe transmitiu o amor à oração e às virtudes cristãs. Era um jovem inteligente, disciplinado e dotado de extraordinária capacidade intelectual.

Como convinha a alguém de sua condição social, foi encaminhado aos estudos superiores. Frequentou academias em Módena e depois a Universidade de Bolonha, um dos mais renomados centros de ensino da Europa. Inicialmente dedicou-se à filosofia e à medicina, mas acabou voltando sua atenção para o Direito, campo em que revelou talento excepcional. Formou-se doutor em Direito Civil e Canônico, conquistando rapidamente fama de jurista competente e administrador íntegro.

Na juventude, Bernardino viveu como tantos homens de seu tempo. A Itália do século XVI era marcada por disputas políticas, rivalidades familiares e frequentes conflitos de honra. Era comum que homens de sua posição carregassem armas para defesa pessoal. Em uma dessas circunstâncias, após um desentendimento, Bernardino feriu gravemente um adversário com um punhal. O episódio marcou profundamente sua vida. Temendo as consequências jurídicas e possíveis represálias, afastou-se da região e dirigiu-se para o norte da Itália, dando início a uma nova etapa de sua trajetória.

Sua inteligência e capacidade administrativa abriram-lhe rapidamente as portas da vida pública. Exerceu funções de magistrado, juiz e prefeito em diversas cidades italianas. Em Felizzano e Cassine destacou-se por sua honestidade; em Castelleone conquistou a estima popular por sua imparcialidade e senso de justiça. Seu nome tornou-se conhecido entre governantes e nobres, e sucessivos cargos lhe foram confiados. Aos olhos do mundo, sua carreira era um sucesso incontestável.

Mas algo começou a inquietá-lo.

Por trás das honras, dos títulos e das responsabilidades, Bernardino percebia um vazio que os aplausos não conseguiam preencher. Quanto mais avançava na carreira, mais compreendia a fragilidade das glórias humanas. Os cargos passavam, os elogios desapareciam e as ambições jamais encontravam repouso.

Foi então que a Providência colocou em seu caminho um sacerdote jesuíta.

Em Nápoles, Bernardino ouviu uma pregação que atravessou as defesas de sua alma. As palavras daquele religioso falavam da beleza da vida cristã, da eternidade, da misericórdia divina e da responsabilidade de cada homem diante de Deus. O magistrado respeitado sentiu-se profundamente tocado. Procurou o sacerdote, abriu-lhe o coração em confissão e iniciou um sério caminho de discernimento espiritual.

A partir daquele momento, sua vida começou a tomar outro rumo.

Passou a dedicar-se com fervor à oração. Redescobriu o valor do Santo Rosário e da meditação diária. Os pobres, que antes encontravam nele um administrador justo, passaram a encontrar um verdadeiro irmão. Bernardino começou a distribuir generosamente seus recursos aos necessitados e a considerar cada vez menos importantes as honras que antes pareciam tão desejáveis. Em uma carta escrita ao irmão, chegou a afirmar que já não desejava as glórias do mundo, mas apenas a glória de Deus e a salvação da própria alma.

Após um retiro espiritual realizado com os jesuítas, compreendeu definitivamente o chamado que Deus lhe fazia. Tinha trinta e cinco anos, idade avançada para quem desejava ingressar na vida religiosa naquela época. Ainda assim, não hesitou. Renunciou à carreira, ao prestígio, à segurança financeira e aos projetos pessoais para ingressar na Companhia de Jesus em 1564.

Aquele que antes julgava causas nos tribunais passou a dedicar-se ao estudo da teologia, à oração e ao serviço dos irmãos. Poucos anos depois foi ordenado sacerdote. Seus superiores logo perceberam nele um homem de extraordinária maturidade espiritual. São Francisco de Borja, então superior dos jesuítas, confiou-lhe importantes responsabilidades na formação de novos religiosos.

Entretanto, seria na cidade de Lecce que sua santidade floresceria de maneira mais luminosa.

Enviado para fundar e desenvolver a presença jesuíta naquela região do sul da Itália, Bernardino ali permaneceria pelos quarenta e dois anos restantes de sua vida. Lecce tornou-se sua casa, seu campo missionário e o lugar onde Deus realizaria, através dele, uma obra admirável de evangelização.

Os habitantes da cidade logo perceberam que aquele sacerdote possuía algo raro. Não era apenas sua eloquência ao pregar nem sua sólida formação intelectual. Era a forma como tratava cada pessoa. Os pobres encontravam nele acolhimento. Os doentes recebiam suas visitas. Os jovens eram instruídos na fé. Os pecadores encontravam misericórdia. Os conflitos familiares frequentemente terminavam graças à sua intervenção prudente e pacificadora.

Mas foi sobretudo no confessionário que São Bernardino exerceu sua missão mais fecunda.

Horas e mais horas de seu dia eram consumidas ouvindo confissões. Com paciência incansável, guiava consciências, reconciliava pecadores com Deus e ajudava os fiéis a reencontrarem o caminho da graça. Muitos contemporâneos afirmavam que possuía um dom singular para compreender os sofrimentos humanos e conduzir as almas ao encontro da misericórdia divina. Por isso passou a ser chamado de "Apóstolo de Lecce".

Seu amor pelos esquecidos também se manifestava de modo concreto. Visitava os prisioneiros e os escravos condenados às galés nos portos do Reino de Nápoles. Levava-lhes alimento espiritual, conforto e esperança. Onde muitos enxergavam apenas criminosos ou homens sem valor, Bernardino via filhos de Deus necessitados de redenção.

Os anos passaram. A idade avançou. O corpo começou a enfraquecer. Em 1610 sofreu uma queda que lhe causou feridas graves e persistentes. Mesmo assim, continuou servindo enquanto as forças permitiram. Sua reputação de santidade crescia cada vez mais. Para o povo de Lecce, ele já era considerado santo antes mesmo de sua morte.

Quando chegou o verão de 1616, Bernardino compreendeu que sua peregrinação terrestre se aproximava do fim. A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade. Autoridades, sacerdotes e simples fiéis acorreram ao seu leito. Ninguém queria perder os últimos momentos daquele homem que durante décadas havia sido pai espiritual de toda a população.

Em uma cena que a tradição conservou com carinho, os magistrados de Lecce aproximaram-se do moribundo e fizeram um pedido incomum: que continuasse protegendo a cidade depois de chegar ao Céu. Bernardino já não tinha forças para falar. Apenas inclinou suavemente a cabeça, dando seu consentimento. Pouco depois, entregou sua alma a Deus pronunciando os nomes que haviam iluminado toda a sua existência: "Jesus... Maria". Era o dia 2 de julho de 1616.

Sua morte não apagou sua influência. Pelo contrário. A devoção popular cresceu rapidamente. Os habitantes de Lecce continuaram recorrendo à sua intercessão, certos de que o antigo pastor permanecia velando por eles diante do trono de Deus.

Séculos mais tarde, a Igreja confirmaria oficialmente aquilo que o povo já acreditava havia muito tempo. Bernardino Realino foi beatificado pelo Papa Leão XIII e canonizado por Pio XII em 22 de junho de 1947. Poucos meses depois, foi oficialmente proclamado padroeiro de Lecce, cidade que amou e serviu até o último suspiro.

A vida de São Bernardino Realino é a prova de que a santidade não depende da forma como alguém começa sua história, mas da resposta que oferece à graça de Deus. Magistrado brilhante, administrador respeitado e homem de prestígio, ele descobriu que o maior dos títulos não era o concedido pelos homens, mas aquele inscrito por Deus no coração dos seus amigos. Por isso abandonou as honras passageiras para conquistar uma herança eterna: a de pastor de almas, servo dos pobres e santo da Igreja.
São Bernardino Realino, rogai por nós!

Reflexão

São Bernardino, antes do sacerdócio, legitimamente trabalhava com êxito na vida leiga, nada fazendo de especialmente condenável. Seria este também um caminho santificação, digno aos olhos de Deus. Mas há dois detalhes que o alavancaram para um patamar espiritual superior. Recebeu formação católica… boa formação, certamente, dado que era honesto no trabalho e aproveitava corretamente o dom de inteligência que recebera; e sempre ajudava os pobres… portanto, não esquecido dos necessitados pelo próprio sucesso, praticava constantemente a caridade. Com tais disposições, Deus lhe propôs ainda mais: “Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mt 5,29). Daí a Providência de uma enfermidade, que o levou a rezar mais, e preparar assim a alma para uma revelação; depois da qual, sensatamente buscou autêntica orientação espiritual. A partir da qual, por fim, consagrou-se mais perfeitamente a Deus. E como religioso foi simplesmente um bom pastor, evangelizando: Deus lhe deu, a mais, os dons da cura e do bom conselho. Educação católica, caridade. Realidades possíveis e até comuns. Caro leitor, qual etapa do roteiro de vida de São Bernardino estaria tão inacessível aos católicos normais, que tenham como ele se iniciado no conhecimento da Doutrina e, por consequência necessária, buscado praticar habitualmente a caridade? Católicos como nós... Que trabalhamos, vivendo a vida usual. Também a nós Deus quer santos. Talvez que nas doenças e adversidades, não nos conformemos… nãos busquemos com mais vontade a oração… que vejamos Nossa Senhora e Jesus em visões de sonhos, mas não na realidade… que não busquemos adequada direção espiritual. Deus sempre nos provê com muitos dons; mas se não os aproveitamos para enriquecer a Ele, ao espírito (querendo enriquecer mais o corpo) e ao próximo, se nem ao menos os identificarmos, ficaremos tão pobres deles, que por fim nada teremos. O mundo se encarregará de no-los tirar – incluindo a vida, perecível no físico. Temos dons, para recebermos ainda mais; é este o plano de Deus. São Bernardino é para nós a evidência clara de que a santidade faz parte da normalidade, que pode ser alcançada nos contextos mais comuns. Queremos? “Pedi e vos será dado, procurai e achareis, batei na porta e ela se abrirá para vós” (Mt 7,7).

Oração

Senhor, que desde a eternidade nos quer felizes, e portanto santos, concedei-nos por intercessão de São Bernardino Realino o bom conselho de, como ele, “não nos contentarmos com este mundo”, ainda no que é legítimo, para não perdermos o que de maior nos quereis dar, que é Vós mesmo; que ele ajude, como fez na Terra, ao que há de mais pobre, o nosso pobre coração, com a cura espiritual. Por Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora. Amém.

Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral
Reflexão e Oração: A12 Santuário Nacional