Há santos cuja história chega até nós cercada de documentos precisos, datas cuidadosamente registradas e testemunhos abundantes. A de Santo Egídio, porém, parece surgir de uma região onde a história e a memória se encontram diante do mesmo altar.
Na região francesa de Nîmes, o antigo túmulo venerado de Santo Egídio remonta, provavelmente, aos tempos merovíngios. A inscrição associada ao sepulcro, contudo, não é anterior ao século X — período em que foi composta a Vida de Santo Egídio, a grande narrativa hagiográfica que transmitiu ao longo dos séculos os prodígios atribuídos ao santo abade.
É a partir dessas antigas tradições que sua figura começa a se delinear.
Segundo a lenda mais conhecida, Egídio teria deixado Atenas e atravessado terras e mares até chegar ao sul da França. Não buscava honras, riquezas nem reconhecimento. Pelo contrário: desejava desaparecer aos olhos do mundo para tornar-se mais presente diante de Deus.
Escolheu para isso a solidão.
Em um bosque próximo à foz do rio Ródano, ergueu para si um eremitério sem paredes luxuosas e sem qualquer conforto. Ali, sob o silêncio das árvores e o rumor distante das águas, Egídio entregou seus dias à oração, à penitência e à contemplação.
O alimento era pobre: ervas, raízes e frutos encontrados na mata. Os jejuns eram frequentes. A terra nua servia-lhe de leito, e uma pedra fazia as vezes de travesseiro.
Era uma existência austera, escondida e silenciosa.
Mas Deus, segundo a tradição, não abandonou aquele homem que havia renunciado a quase tudo.
Conta-se que, enternecido pela vida de sacrifício de seu servo, o Senhor enviou-lhe uma cerva. Todos os dias, o animal aproximava-se do eremita e lhe oferecia o leite necessário para seu sustento. A floresta, que deveria ser apenas o cenário de sua solidão, tornou-se então o lugar de uma amizade silenciosa entre o homem de Deus e aquela criatura indefesa.
A cerva passou a ser sua companheira.
Durante muito tempo, Egídio permaneceu oculto do mundo. Mas há destinos que não podem permanecer escondidos para sempre.
Certo dia, uma caçada atravessou a região.
Os homens perseguiam animais pela mata, e o ruído dos cavalos, das vozes e das armas rompeu a paz do bosque. A cerva procurou refúgio junto daquele que sempre a havia protegido.
Foi então que ocorreu o episódio que marcaria para sempre a memória de Santo Egídio.
O rei dos Godos — chamado pela tradição de Flávio, enquanto outras versões antigas identificam o soberano como Vamba — participava da caçada. Uma flecha foi lançada em direção à cerva. Mas Egídio encontrava-se ao lado do animal.
A flecha não atingiu a criatura. Feriu o santo.
O caçador que esperava encontrar a presa encontrou, em vez disso, um homem ferido, um eremita de vida austera e uma cerva refugiada ao seu lado.
Aquele encontro transformou-se em amizade.
O rei ficou profundamente comovido com o ocorrido. A solidão de Egídio, sua vida de penitência e a relação quase milagrosa que mantinha com a cerva revelaram-lhe algo que o poder não podia produzir: uma riqueza que não vinha da terra, mas de Deus.
Como sinal de estima e reparação, ofereceu-lhe uma extensão de terra.
Ali, onde antes havia apenas a vida solitária do eremita, nasceu uma comunidade.
Egídio compreendeu que Deus lhe pedia algo diferente. Aquele que havia procurado a solidão passou a acolher homens desejosos de seguir o mesmo caminho de oração e penitência. A floresta deu lugar ao mosteiro. O silêncio do eremita tornou-se orientação espiritual para uma comunidade inteira.
Assim nasceu a abadia que receberia o nome de Saint-Gilles.
Egídio tornou-se abade e pai espiritual dos monges. Aquele homem que buscara fugir do mundo acabou formando outros homens para viverem no mundo sem pertencerem aos seus excessos.
A tradição situa sua morte no dia 1º de setembro de 720.
Depois de sua morte, porém, sua presença pareceu crescer ainda mais.
Junto com os monges que haviam se reunido ao seu redor, Santo Egídio deixou uma profunda marca na região que hoje corresponde ao Languedoc. A comunidade trabalhou a terra, tornou férteis campos antes incultos, favoreceu caminhos e atividades comerciais e, acima de tudo, anunciou o Evangelho.
A evangelização não se separava do trabalho.
A fé encontrava mãos que cultivavam a terra.
A oração se prolongava no esforço cotidiano.
E o Evangelho chegava aos corações não apenas por palavras, mas também por uma vida capaz de transformar uma região inteira.
Egídio tornou-se conhecido como um homem de milagres, um verdadeiro taumaturgo. Sua fama espalhou-se pela França e atravessou fronteiras. A devoção ao santo alcançou outras regiões da Europa, chegando à Bélgica, à Holanda e à Itália.
Com o passar dos séculos, seu túmulo transformou-se em um dos grandes destinos da peregrinação medieval. Multidões percorriam longas estradas para rezar junto às relíquias do eremita. Saint-Gilles tornou-se um ponto essencial nas rotas que ligavam peregrinos a Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela, e sua fama alcançou extraordinária importância na cristandade medieval.
É impressionante pensar no contraste. Um homem havia procurado a floresta para desaparecer.
Depois de sua morte, o mundo inteiro passou a procurar o lugar onde ele havia vivido.
Aquele que desejara apenas uma caverna tornou-se o centro de uma cidade.
Aquele que escolhera uma cerva como única companhia tornou-se companheiro espiritual de multidões.
E a flecha que ferira sua carne acabou tornando-se um dos sinais pelos quais a arte cristã passou a reconhecê-lo.
Por toda parte, a imagem de Santo Egídio aparece acompanhada da cerva e, muitas vezes, da flecha que recorda o dia em que a compaixão do eremita falou mais alto do que sua própria segurança.
Sua devoção também permaneceu viva em lugares distantes da França.
Na Itália, destacam-se, entre outros, Tolfa, no Lácio, e Latronico, na Basilicata.
É em Latronico que, há quase três séculos, se conserva uma tradição singular conhecida como o “milagre do maná”.
Na basílica dedicada a Santo Egídio, desde 1716, ocorre, em uma ou mais sextas-feiras do mês de março, um fenômeno que continua a despertar a devoção do povo. Da pintura que representa Santo Egídio em penitência em seu eremitério começa a verter um líquido incolor.
As crônicas já falavam de acontecimentos semelhantes desde 1709. Mas foi em 1716 que o fenômeno se manifestou de modo particularmente evidente.
O povo atravessava tempos difíceis, marcados por calamidades naturais. Diante do sofrimento e da insegurança, os fiéis recorreram à intercessão daquele antigo eremita que, séculos antes, havia abandonado tudo para confiar inteiramente em Deus.
As orações, segundo a tradição local, foram atendidas.
E o líquido que surgiu da imagem passou a ser compreendido pelo povo como um sinal ligado à intervenção de Santo Egídio.
A devoção tornou-se tão forte que, em 22 de fevereiro de 1728, o bispo local promulgou um decreto autorizando que o líquido fosse recolhido sempre que voltasse a aparecer.
Desde então, o fenômeno é aguardado com expectativa e, quase todos os anos, os fiéis voltam seus olhos para a antiga imagem.
Assim, entre o silêncio de uma floresta francesa e a fé viva de uma pequena cidade italiana, a memória de Santo Egídio continua a atravessar os séculos.
Sua história começa com um homem que escolheu a pobreza.
Prossegue com uma cerva que encontrou abrigo.
É marcada por uma flecha que feriu o santo.
Floresce em uma abadia.
Espalha-se por estradas percorridas por peregrinos.
E permanece viva onde ainda existe alguém disposto a acreditar que uma vida escondida aos olhos do mundo pode, nas mãos de Deus, iluminar gerações inteiras.
Santo Egídio não procurou ser grande.
Procurou apenas servir.
Não buscou multidões.
Buscou o silêncio.
Não desejou possuir riquezas.
Preferiu uma pedra como travesseiro e a terra como leito.
E, justamente por isso, a memória daquele eremita que desejou desaparecer nunca desapareceu.
Todos os anos, no dia 1º de setembro, a Igreja conserva sua memória.
E a antiga cerva ainda parece caminhar ao seu lado, lembrando aos séculos que a verdadeira força não está na flecha que fere, mas na caridade que se coloca diante dela para proteger os mais frágeis.
Santo Egídio, rogai por nós!
Pesquisa e Texto: Equipe PASCOM Catedral