Domingo Laetare: alegria no coração da Quaresma

No caminho quaresmal, quando a Igreja já percorreu boa parte da preparação para a Páscoa, surge um domingo singular, o IV domingo da Quaresma, conhecido desde a antiguidade como Laetare.

Na tradição litúrgica latina, era comum que certos domingos recebessem o nome das primeiras palavras do intróito, o canto que corresponde à atual antífona de entrada da Missa. Como nos testemunha o historiador da liturgia Josef Andreas Jungmann: “O intróito é o primeiro texto do formulário variável da missa e, em geral, o primeiro texto que a comunidade ouve. Por isso a primeira palavra serve para identificar o formulário e, frequentemente, o respectivo dia. Conhecemos o domingo Laetare, mas também a missa Rorate ou o Réquiem.”¹ Assim acontece neste dia: o canto começa convidando Jerusalém à alegria, e desse convite nasce o nome pelo qual a tradição o consagrou.

Laetare, Ierusalem, et conventum facite omnes qui diligitis eam; gaudete cum laetitia, qui in tristitia fuistis: ut exsultetis et satiemini ab uberibus consolationis vestrae.” (Is LXVI, 10–11)

“Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais! Cheios de júbilo, exultai de alegria, vós que estais tristes, e sereis saciados nas fontes da vossa consolação.” (Is 66, 10–11)

O tema, portanto, deste domingo é a alegria; contudo, ainda não é a da Páscoa. Trata-se antes de um anúncio, de uma esperança e também de um incentivo aos fiéis a não esmorecerem no deserto quaresmal, como nos ilumina o Abade Beneditino Próspero Guéranger: “O motivo da Igreja ao introduzir essa expressão de alegria na liturgia de hoje é encorajar seus filhos a perseverarem fervorosamente até o fim desse santo tempo.”²

A própria liturgia exprime esse espírito com características muito próprias ao prescrever: “No IV domingo da Quaresma (“Laetare”) e nas solenidades e festas permite-se o som dos instrumentos, e o altar pode ser ornado com flores. E nesse domingo podem ser usados os paramentos de cor rósea.”³

No meio da austeridade própria da Quaresma, por meio desses elementos, há a intenção de provocar na alma, através dos sentidos, aquilo que o grande Arcebispo de Milão e historiador da liturgia Alfredo Ildefonso Schuster chamou de “um pequeno descanso, a fim de recuperar nossas forças antes de prosseguir com renovado fervor no caminho da penitência.”⁴ Ou seja, um fôlego no meio do sóbrio itinerário quaresmal.

O uso da cor rosácea na liturgia tem origem medieval e começou a difundir-se entre os séculos XII e XIII. Trata-se de um tom que nasce da atenuação do roxo penitencial. Com o tempo, o costume consolidou-se na tradição litúrgica da Igreja e passou a ser reservado para o IV domingo da Quaresma e o III do Advento, ambos pelo mesmo motivo.

Reparem que a antífona que dá nome a este domingo faz referência a Jerusalém. Esse detalhe adquire um significado particular em Roma por causa da estação celebrada neste dia. Na antiga liturgia de Roma, a statio era a igreja designada para a celebração solene da Missa, na qual o Papa e o clero romano se reuniam com o povo durante a Quaresma. No Domingo Laetare, essa estação era celebrada na Basílica de Santa Cruz de Jerusalém, uma das igrejas mais antigas e veneradas da cidade. Segundo a tradição, essa basílica foi erguida no século IV por Santa Helena, que ali depositou relíquias da Paixão de Cristo trazidas da Terra Santa, fazendo dela a “Jerusalém de Roma”. Assim, a referência a Jerusalém no canto litúrgico encontra também um eco concreto no lugar da celebração.

Um aspecto muito relevante é evidenciado pelo Cerimonial dos Bispos: “A observância anual da Quaresma é o tempo favorável pelo qual se sobe ao monte santo da Páscoa. Pela sua dupla característica, o tempo quaresmal prepara os catecúmenos e os fiéis para a celebração do mistério pascal.”⁵ De fato, esse tempo litúrgico na antiguidade era um tempo catecumenal. Nos domingos finais desse período celebravam-se os chamados escrutínios, ritos de oração, purificação e exorcismos destinados àqueles que se preparavam para receber os sacramentos da iniciação cristã. Essa antiga estrutura catecumenal da Quaresma foi em grande parte recuperada pela reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II, que determinou a restauração do catecumenato de adultos e de seus ritos preparatórios. Nesse contexto, o Domingo Laetare era também percebido como um momento de particular encorajamento para os catecúmenos. Depois de semanas de penitência e instrução, a liturgia lhes permitia entrever a alegria que se aproximava: em breve seriam incorporados à Igreja pelo Batismo e participariam pela primeira vez da Eucaristia.

Por esse motivo, na liturgia antiga, o Evangelho proclamado neste domingo era o da multiplicação dos pães (Jo 6, 1–15). Por essa razão, este dia ficou também conhecido em algumas tradições como Dominica de Panibus, isto é, o Domingo do Pão. A escolha desse Evangelho apontava para o mistério da Eucaristia, que os catecúmenos receberiam pela primeira vez na noite da Vigília Pascal.

Na Idade Média desenvolveu-se também o costume de, nesse domingo, os fiéis visitarem a chamada “igreja-mãe”, isto é, a igreja onde haviam recebido o batismo e sido feitos filhos de Deus e da Igreja. Era igualmente comum que jovens estudantes, que trabalhavam ou estudavam longe de suas famílias, recebessem permissão para retornar aos seus lares nesse dia. E, já que visitavam o lar, visitavam também suas mães, levando-lhes pequenos presentes ou flores. Esse costume acabou dando origem, especialmente na Inglaterra, ao que passou a ser conhecido como Mothering Sunday, o que acabou por dar origem ao costume de celebrar nesse mesmo dia o atual Dia das Mães.

Outro costume tradicional ligado a este dia é a bênção da chamada Rosa de Ouro, realizada pelo Papa. Esse rito possui uma relação simbólica com a primavera no hemisfério norte, a estação das flores. O Papa Leão IX, no século XI, já menciona esse costume como algo conhecido em seu tempo. Com o passar dos séculos, a simples oferta de flores foi substituída por uma rosa confeccionada em ouro, ricamente trabalhada, que o Papa costumava oferecer como distinção honorífica a personalidades, mais tarde reservada somente às mulheres. Um exemplo é o da Princesa Isabel, que recebeu essa honraria em 1889 do Papa Leão XIII, após a assinatura da Lei Áurea. Mais recentemente, a Rosa de Ouro passou também a ser concedida a importantes santuários marianos. Foi o que fizeram os papas Paulo VI, Bento XVI e Francisco ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Por causa dessa tradição, em certos lugares este domingo também recebeu a denominação de Dominica de Rosa, isto é, o Domingo da Rosa.

Todas essas tradições e costumes mostram como, ao longo dos séculos, esse domingo especial foi cercado de sinais de júbilo e consolação em meio à sobriedade quaresmal.
Contudo, mais do que costumes históricos, esses gestos exprimem um significado profundamente espiritual: a liturgia permite entrever, em meio à estrada penitencial, a alegria para a qual a Quaresma nos conduz. Como recordou Joseph Ratzinger: “É espontâneo perguntar: mas qual o motivo pelo qual devemos nos alegrar? Certamente um motivo é o aproximar-se da Páscoa, cuja previsão nos faz pregustar a alegria do encontro com Cristo ressuscitado. […] Apesar da nossa indignidade, nós somos os destinatários da misericórdia infinita de Deus. Deus ama-nos de um modo que poderíamos classificar ‘obstinado’, e envolve-nos com sua ternura inexaurível. […] Aquele amor que é o verdadeiro segredo da alegria cristã, ao qual convida o Domingo Laetare.”⁶

Fica o convite da Mãe Igreja aos fiéis: continuarmos a nossa peregrinação com renovado ânimo, com o olhar já voltado para a claridade que se aproxima, como quem ainda na madrugada se alegra ao perceber no horizonte as primeiras luzes da aurora pascal.

Ramon Ornellas

Notas
1. Josef Andreas Jungmann, Missarum Sollemnia: Origens e significado da Missa Romana, vol. 1 (São Paulo: Paulus, 2010), p. 330.

2. Prosper Guéranger, The Liturgical Year: Lent, trans. Dom Laurence Shepherd, O.S.B. (London: Burns & Oates; New York: Benziger Brothers, 1912), p. 313 [my translation].

3. Congregação para o Culto Divino, Paschalis Solemnitatis: Carta circular sobre a preparação e celebração das festas pascais, 16 de janeiro de 1988, n. 25.

4. Ildefonso Schuster, The Sacramentary (Liber Sacramentorum): Historical and Liturgical Notes on the Roman Missal, trans. Arthur Levelis-Marke, vol. II (London: Burns Oates & Washbourne Ltd., 1925), p. 115 [my translation].

5. Cerimonial dos Bispos, n. 249.
6. Bento XVI, Um caminho de fé antigo e sempre novo: o ano litúrgico pregado por Bento XVI, tomo II (São Paulo: Molokai, 2017), pp. 309–313.